Livros e Filmes: Comboio noturno para Lisboa

20/09/2016

Um dia destes, amiga de SP interpela-me no messenger perguntando-me se já tinha lido o Trem Noturno para Lisboa e, caso não o tivesse feito, que interrompesse o que estava a fazer e o fosse comprar imediatamente, porque achou que só podia ter sido escrito por mim e que o livro dentro do livro, o do Prado, na verdade era meu, escrito com um pseudónimo. Obviamente, desatei a rir às gargalhadas, mas lembrei-me de ir procurar o que tinha escrito sobre o filme e que, na época, me havia dado uma vontade imensa de ler o livro dentro do livro, por me lembrar que me apetecia parar o filme a toda a hora para tirar notas. Como era de noite, resolvi procurar o filme e revê-lo. Gostei, mas não me bateu como da primeira vez, claro… Fui à procura do livro dentro do livro e concluí que nunca existiu, tal como da primeira vez, quando cheguei a casa, depois do cinema. Dizia-me essa amiga que era eu quem tinha de o escrever. Achei generoso da parte dela e fiquei de comprar o original para ler.comboio

Na minha paragem seguinte na FNAC, foi o que fiz. Só consegui uma edição foleiríssima, com uma estação de comboios na capa – que adoro, acho incrível tudo o que tenha a ver com comboios, principalmente os de compartimento, aqueles Maria Fumaça então achava lindos, estou inclusive farta de fantasiar encontros imediatos em comboios, e de andar neles, romance que é bom, nada – mas com uma imagem photoshopada e mal do Jeremy Irons, escarrapachada por cima da imagem da estação. Uma das coisas mais mal enjorcadas que tenho visto. A falta de respeito pelos livros em nome do vil metal e do famigerado mercado causa-me cada vez mais engulhos. O designer daquilo devia ter vergonha e a editora fustigar-se por apresentar aquela capa horrorosa, tendo em conta o excelente conteúdo.

No que à literatura e beleza poética da obra diz respeito, não estamos perante grande coisa, a preocupação, está visto, foi quase exclusivamente com o conteúdo, e um pouco com a narrativa. É pena, mas não se pode ter tudo. Muito provavelmente o autor é mais filósofo do que escritor e está tudo certo nesse quesito. O conteúdo, de facto, é incrível. E se ao início pensei que não poderia tê-lo escrito, precisamente porque me vejo muito mais criativa do que filósofa, apesar do que o que escrevo poder inscrever-se nessa categoria, como inclusive já me foi dito por alguém que percebe da poda, agora que estou prestes a acabá-lo, e reforçando que se tivesse sido escrito por mim o cuidado com a estética poética e literária da coisa teria sido muito maior, tenho um lado artístico que cada vez mais quer prevalecer, em detrimento do racional, científico e lógico, vejo que poderia perfeitamente ter sido eu a escrevê-lo. Tudo é muito consciente, muito lógico, muito racional, nada me causa verdadeiro espanto, apenas um ou outro sorrisinho cúmplice, e, lá está, falta-lhe a magia da poesia, da literatura, as que nos fazem arregalar os olhos e dar graças ao universo por nos permitirmos maravilhar, ainda, apesar de tudo. Mas a visão de tantas coisas, tantos temas, é tão parecida que não dá para abandonar. Há detalhes de personalidade inclusive que nunca vi em mais ninguém. E enquanto pensava nisto, e numa característica em particular, ocorreu-me que a herdei do meu pai. Por falar em pai, mais um facto sincrónico, o pai do Prado era juiz, como o meu, que, felizmente, não era tão severo.

Ambos, livro e filme, valem muito, muito a pena. O livro é muito mais completo do que o filme, o que é naturalíssimo, o filme é quase uma versão do livro, e não uma adaptação, há coisas inclusive inventadas pelo argumentista, o ritmo do livro é outro e quase posso dizer que são coisas diferentes. Pelo menos, é preciso vê-los como tal, para não haver desilusões.

  • Elaine 20/09/2016 at 15:57

    Direto ao ponto, Isa. Faltou o wow factor que você colocaria com certeza. Mas tá valendo.

    • Isa 20/09/2016 at 15:58

      ‘Tá valendo sim, claro, como não? O conteúdo é incrível. Valeu, querida, não me lembraria de comprar o livro se não tivesses falado nele. :) e deliciei-me :)

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