Magic in the Moonlight*

16/05/2016

Este fim-de-semana, dei-me conta que, aos 80 anos, Woody Allen continua a fazer um filme por ano. Mais do que gostar de saber que concretizamos sonhos mais ou menos ambiciosos até ao fim, que somos capazes de continuar a produzir, e bem, até tão tarde na vida, o que me encanta verdadeiramente é assistir à evolução psíquica de alguém, pela via da arte. Woody Allen é dos melhores exemplos que conheço.

Estava à procura do Homem Irracional, percebi que afinal já o tinha visto, não há muito tempo, e do qual não tinha gostado, quando me deparei no IMDB com o Magic in the Moonlight, que me passou ao lado no ano de estreia e que agora me seduziu imediatamente. Não só pelo facto de o ator principal ser britânico, Colin Firth, como por ter, logo no título, duas das palavras que mais me encantam na língua inglesa. Gosto do simbolismo da primeira e da sonoridade poética da segunda.

Apesar de voltarmos ao que nos é conhecido, à nossa sombra, que nunca nos larga, como em O Homem Irracional, é bonito ver que a magia acaba sempre por nos conquistar, por mais grumpy que sejamos, nos tenhamos tornado. E que sem magia a vida não tem graça.

Há um motivo para sermos grumpy, há sempre um motivo, às vezes um conjunto de motivos, psíquico, para justificar as nossas escolhas, a nossa maneira de ver o mundo e de nos posicionarmos na vida. E há o que nos espera, o que é esperado de nós, não pelos nossos ou pelo coletivo, não exclusivamente, pelo menos, mas pelo nosso eu mais profundo, o que sabe o que é verdadeiramente nosso e não um produto da família ou do contexto sociocultural onde nascemos e nos desenvolvemos. Que se prende com o que nos move, o que desejamos para nós, lá bem no fundinho, o que nos completa e nos faz felizes, a nós, ao nosso coração, à nossa alma. Tudo o resto, nomeadamente o reconhecimento público, vem por acréscimo. O reconhecimento público é uma consequência, não um objetivo a atingir.

Mais do que palavras e acusações, explicações e provas, nada melhor do que ver, constatar com o intelecto mas também com a emoção. Em Magic in the Moonlight o efeito do ego e da persona, que escondem um narcisismo patológico,no protagonista são claros. Ele precisa de Sophie, com ela voltou a rir, a beber, a festejar, o que ganharia ela em troca? A oportunidade de privar com o maior, o melhor, o incrível. O que, em vez de surtir o efeito pretendido, afasta qualquer um, porque assusta, porque todos nós temos necessidade de nos sentirmos necessários, de saber que contribuímos ativamente para que o outro se sinta uma pessoa melhor, mais completa, e faça tudo para chegar ao melhor de si.

Interessante ver o quão perniciosa pode ser a nossa grumpyness… Se, por um lado, queremos que gostem de nós apesar da nossa grumpyness, porque faz parte do pacote, é ela que não só impede de comunicar o nosso verdadeiro desejo, de sermos amados, como impede quem quer que seja de se aproximar. O sinal é claro, eu não quero que venhas aqui abalar a minha estrutura tão fragilmente montada, não quero que invadas a muralha que construí à minha volta, porque me mantém seguro, apesar de ausente de verdadeiro contacto.

Outra questão bonita de se ver é a redenção da lógica, do racional, do científico, à magia do amor, do acreditar sem provar, da fé, da ilusão de que todos precisamos para conseguir suportar a realidade que nos é inevitável.

Magic in the Moonlight deixa-nos de sorriso cândido no rosto, ainda que a redenção pelo amor não esteja ao alcance de todos, exceto na ficção, por medo, nomeadamente de perder o controlo, que nos deixa seguros, mas que nos limita, deixando-nos a treinar truques de cartas fechados em quartos de hotel, com cenários paradisíacos lá fora, à nossa espera.

magiaaoluar

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