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Matilde

06/06/2005

Pela terceira vez, a caminho da Alfredo da Costa, mais uma vez antes do tempo. Devagar por causa dos buracos, rápido porque o tempo urge. Nunca aprendera um caminho tão depressa. Da Lapa ao Saldanha, em piloto automático, com um olho na estrada outro na X.

O pai já lá estava à espera, mais uma urgência, mais uma reunião interrompida. Dissemos-te até já. Desapareceste portas dentro com uma equipa atrás de ti.

Eu e o pai cá fora, à espera. Ele tentava trabalhar. “Consegues?” “Sim, sabes que isto à terceira um gajo já fica um bocado imune…” Mas a concentração não era muita.

São quase oito da noite. A Roda da Sorte está no puzzle final. O concorrente não adivinha e o Herman José, ao mesmo tempo que as letras se viravam, diz: era Matilde, era Matilde…
– ‘Tás a ouvir? Tu ouviste? R., ela nasce hoje!
– Hã? Ouvi o quê? Tu achas?
– Vais ver se não é!

E foi! Às 20H30, do dia 6 do 6, um mês antes do previsto, nasceste, Matilde. Lembro-me como se fosse hoje. Lembro-me de te ver, com 51cm e dois quilos e oitocentos. Comprida, magrinha, com muito cabelo. Lembro-me de te pegar ao colo pela primeira vez, tinhas tu dois dias e eras leve como uma pluma. Tão frágil que tinha jurado que só te pegaria ao colo quando tivesses uns oito meses. Tinha medo que te partisses… Foste o primeiro bebé em que peguei. Foi a tua mãe que te pôs no meu colo. Nem me mexia. Quase nem respirava… Lembro-me de te ir buscar à escola, minúscula, com três meses. Lembro-me de te adormecer, a muito custo. Ao colo, durante que tempos cantarolava tudo o que me vinha à cabeça. Inventava partes das letras que já não me lembrava, cantava baixinho e tu continuavas a olhar para mim, com ar de quem estava a ouvir. Não choravas. Apenas não querias dormir. Demoravas tanto tempo que às tantas já não me lembrava de mais canções infantis e trauteava os hinos dos países que sabia. E tu nada. Lembro-me da tua primeira papa. Lembro-me de quando começaste a gatinhar. Atraída por um telefone de teclas que os teus pais tinham trazido de Hong Kong. Sabes que foi lá que eles souberam que tu vinhas ao mundo? Foi de uma chamada inernacional que soube que ias nascer. Lembro-me do hipopótamo de cabeça cor-de-rosa que empurravas pela casa fora. Lembro-me do dia, do sítio e de como começaste a andar. Foi no teu quarto, que era cor-de-rosa, esponjado, pintado pela tua mãe. Tinha uma fila de bonecos em stencyl, que a tua mãe também pintou. Tudo isto antes de tu nasceres. A arca onde guardavas os brinquedos também era cor-de-rosa, aos quadrados brancos. Forrada pela tua mãe e com a tampa almofadada e tudo. A tua mãe sempre foi muito jeitosa benz’á Deus. O teu hipopótamo fazia barulho quando andava. Tu já estavas quase, quase a andar. Eu empurrei-o rapidamente para a frente e para trás, sem o largar, ao mesmo tempo que te chamava. Deste três passos e agarraste no hipopótamo. Contive-me para não gritar para não te assustar. Assim que chegaste ao pé de mim não me contive. Agarrei em ti e só não bateste com a cabeça no tecto e não te sufoquei logo a seguir com um abraço porque não calhou. Digo-te aqui e agora: até me vieram as lágrimas aos olhos. Lembro-me de ver o rei Leão contigo até à exaustão. De cantarmos as músicas. De dizeres as falas de cor. Lembro-me da primeira vez que disseste o meu nome: Bé! É giro, chamas-me assim até hoje. Lembro-me de te trazer da escola e de quereres vir a pé. Lembro-me que querias entrar em todas as portas. Lembro-me de subir a rua contigo ao colo e entrar a arfar na mercearia do Sr. Manel. Lembro-me da festa que ele te fazia, dos rebuçados que lhe pedias e dos chupa-chupas que ele te dava. Lembro-me de ficar horas contigo ao colo uma noite em que acordaste com um pesadelo e não paravas de chorar. Lembro-me de passear contigo no Jardim da Estrela. Lembro-me de quando me foste visitar a Sesimbra. Tenho uma foto tua ao colo do meu pai, nessa praia, eras tu mínima. Mal andavas, a areia não facilitava, devias ter uns dois anos. Lembro-me quando fizeste três anos, quatro, cinco…

Hoje fazes 11. Estás grande e mais gira do que nunca.

Só te posso desejar o melhor do mundo. Hoje, sempre e para sempre!

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