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May God Rest His Unquiet Soul*

12/08/2014

Hoje, por causa da morte de Robin Williams, na sequência de uma depressão, por suicídio por enforcamento, li uma série de tuites do Tito, que não necessariamente se referiam ao ator, que me puseram a pensar.

Todo mundo quer ajudar todo mundo, desde que não dê muito trabalho e não atrapalhe muito. Cuidar do coleguinha dá trabalho e exige um pouco mais que um simpático abracinho. Cuidar do coleguinha é escutar e olhar o coleguinha atentamente. E estar do lado dele, caso ele precise se apoiar em algo. Quando alguém está passeando por um vale de sombras, poucas coisas são mais detestáveis do que ser empurrado em direção ao sol. Quando alguém passeia por um vale de sombras, essa pessoa precisa de companhia. E uma companhia que respeite seu passo e que não desista. No fundo, acho que só quem conhece de perto o vale de sombras sabe como ele é. E geralmente evita descrevê-lo. 

Também houve outro tuite, lamentavelmente já não me lembro de quem, que dizia mais ou menos: se Robbin Williams soubesse que era tão querido talvez não tivesse morrido assim. É uma pena, mesmo, que só se diga que se gosta das pessoas quando elas morrem. Nós temos esse péssimo hábito, é geracional, penso que as gerações mais novas, dos filhos dos meus amigos, já são diferentes, graças a deus, demorou demais.

Tenho o maior respeito pelos suicidas, mesmo, não é uma questão de coragem ou falta dela, é desespero puro, é não ver saída, é estar entre a parede e a parede. Diz-se que ele tinha saído de mais uma clínica de reabilitação, acho que desta vez de álcool, e que já o havia feito por abuso de drogas.

É difícil recuperar a vida sem drogas ou álcool. De alguma forma, estes permitem-nos acessar e viver coisas que não conseguimos viver ou fazer sóbrios. As drogas e o álcool não fazem mais do que livrar o self da barreira de ferro do ego, permitem-nos chegar ao nosso eu divino, mas também às sombras. Não é à toa que o consumo de ayahuasca cresce a cada dia. Não sendo uma droga, abre as portas para o inconsciente. Há outros meios, menos autodestrutivos, o contacto com a natureza é um deles, a meditação é outro, o culto da religião, a oração.

Se não podemos viver com drogas ou álcool por não termos autocontrolo, por ser uma compulsão, resta-nos uma vida vazia, sem sentido, que propicia uma depressão. E a depressão é um buraco escuro, sem fim. E se acabarmos com isto, passa tudo, nós só queremos acabar com isto… Foi o que aconteceu este ano com Seymour Hoffman, por exemplo, e agora com Robin. 

Queremos fazer alguma coisa para ajudar, mas chega uma hora em que nos cansamos. No entanto, se é de facto uma depressão, isso irá perceber-se. E dei-me conta de que muitas vezes nos esquecemos de quem está a sofrer com o processo, achando que a depressão é voluntária, ao contrário de outras doenças físicas. Somos tão preocupados com o corpo e esquecemo-nos da cabeça, sendo que as manifestações no corpo são um último aviso de que algo não está bem psiquicamente. Mais uma vez, não adiantam remédios, drogas para nos livrarmos de outras drogas, mas amor, muito amor, e estar lá, calado, quieto, disponível. A depressão alheia não é uma ofensa, é um caso muito sério, o depressivo consegue resolver a sua vida como qualquer outra pessoa, não nos procura para isso, mas para ser acolhido, não julgado, não convencido, apenas acolhido e ajudado, caso peça ajuda. A seu tempo, quando estiver pronto.

O clube dos poetas mortos é um dos filmes da minha vida, obrigada, Robin Williams.

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  • Elaine 13/08/2014 at 12:59

    Obrigada Isa. Você sabe o quanto isso já acabou comigo. Amem que não tenho tendências suicidas mas o “black dog” não tem compaixão. E é lamentável o que aconteceu com RW e acontece com tanta gente não famosa, que não tem a sorte de ter as pessoas que eu tenho ao meu lado, é a única saída,

    • Isa 13/08/2014 at 14:36

      <3

  • RBM 13/08/2014 at 15:28

    A droga e o álcool são sempre o bicho papão destas histórias. Mas a verdade é que os seus protagonistas, aqui o Robin Williams, há uns meses até o Philip Seymour Hoffman, aparentemente eram pessoas de uma sensibilidade e inteligência extremas (nem vamos falar do talento…) e a vida real para pessoas assim, por vezes, não é fácil. Acredito que seja difícil para pessoas que são especiais terem de lidar com a fealdade do mundo, com a estupidez, brutalidade e as limitações dos outros e deles próprios. As drogas e o álcool são por vezes o combustível que os permite continuar a prosseguir a sua arte – e quanta arte magnifica veio do consumo destas substâncias! Todos nós por vezes temos essa necessidade de ter mais, de comunhão nem sabemos lá com o quê – connosco, com os outros, com o mundo-? – quanto mais estas pessoas cujo percurso de vida as deve ensinar a ser por natureza insatisfeitas, a quererem sempre mais.

    E o último parágrafo sobre a depressão é lindo, Isa.

    • Isa 13/08/2014 at 16:04

      Total, RBM, subscrevo em género, número e grau. É horrível dizê-lo mas quem seria a amy winehouse sem consumir aquilo tudo? a voz ninguém lhe tira, mas e aquelas letras do fundo da alma?
      Bjo, merci :)

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