Memória

27/04/2020

É uma coisa engraçada, a memória.

Há de haver um processo qualquer que nos faz esquecer determinadas vivências para que possamos sobreviver. E, de alguma forma, meio mancos, consigamos coxear para a frente.

Essas memórias são como brasinhas.

Que não pegam fogo à casa mas ainda não se extinguiram. Dançam umas com as outras em cantos recônditos da nossa cabeça. No entanto, basta um pequeno rastilho para que apareçam bem vívidas. E ocupem rapidamente o lugar da frente das nossas memórias, como se tivessem acontecido há cinco minutos.

Dizem que só os velhos vivem de memórias, que é o que lhes resta porque o futuro é ao minuto.

Mas é mentira.

Há muitos seminovos que vivem de memórias. Outros que nem das memórias saíram. Lá permanecem, nos anos 80 e 90. 60 e 70…

E alguns que vivem de memórias do que não aconteceu, do que poderia ter sido, agarrando-se ao que foi, como medida preventiva da consciência. Para dar tempo ao inconsciente de processar o conteúdo simbólico dessa memória, agora com mais dados disponíveis.

No entanto, as memórias têm um tempo próprio.

Não adianta forçar. Estão na cabeça, mas obedecem ao tempo do coração, que, como se sabe, é muito mais lento. Por isso parecem esquecidas, apesar de nos condicionarem todos os dias.

São pequenos fantasminhas que vivem nas sombras.

E fazem do ego e da persona umas marionetes, às vezes.

É preciso ter paciência com as memórias, como se tem com os velhinhos.

As memórias também mantêm vivos os que já não existem aqui. Mas que hão de existir noutro lugar desse cosmos imenso.

Gosto da ideia de as nossas almas se tornarem estrelas

Como explicamos às crianças que alguém de quem gostam muito nunca mais poderão ver. Mas serão para sempre vistas, porque lá de cima, das estrelas, a visão é muito ampla. Dá para ver tudo, em vários lugares do mundo ao mesmo tempo.

Chamar mundo à Terra dá uma ideia da nossa pequenez. A de não conseguirmos incluir nas nossas racionalizações a probabilidade do que não conhecemos vir a ser determinante nas nossas vidas. Só o consideramos na morte, e mesmo assim não queremos saber.

Deve ser mais uma estratégia de sobrevivência.

A cabeça escolhe não ver o que não consegue mudar, ainda não está preparada para aceitar, porque implicaria algum tipo de ação. Quanto mais não seja da consciência, que dá trabalho. E nem sempre compensa, a curto prazo, pelo menos.

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