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Mind the Gap: Um tipo perigoso

10/02/2016

Há um padrão psicológico perigoso, que não depende de género, está entre homens e mulheres. É um tipo que parece que entra na nossa cabeça, nos abduz o cérebro e nos torna obcecados por ele. Faz que pareça que não temos vontade própria, que a direção é só uma, a dele, que nos impede de pensar em qualquer outra coisa ou sequer de fugir da raia. Pior, que nos induz a querer lá ficar, porque simplesmente não conseguimos desviar dessa rota. É como se fosse um íman atraído por outro, por mais que o afastemos, o ponhamos de lado, faz a força que conseguir para chegar ao outro pedaço de íman.

Pior de tudo, nós queremos ficar perto, emocionalmente. E não se trata apenas de um simples manipulador, é bem pior do que isso. É um manipulador com phd. Vai além da manipulação, inclusive.

Para que tal aconteça, é preciso um algoz. Este tipo perigoso tem à disposição qualquer coisa que nos é vital, que se prende com uma necessidade básica nossa e que ele aparentemente satisfaz, mas só até conseguir o que quer. É perito em descobri-la. Não é sensibilidade, é calculismo. Depois, abandona, deixando-nos reféns. É ardiloso, não apresenta sinais claros e evidentes de perigo, conquista com falinhas mansas, alguma vitimização, e mesmo que não haja entrega do outro lado, mesmo que este insista em desconfiar, porque há qualquer coisa que não bate certo – a intuição tem isso de bom, funciona como um instinto de sobrevivência, mesmo que a ignoremos, não nos deixa em paz até que a ouçamos -, ainda assim, há prisão, há dependência, há obsessão. Em diferentes graus, mas existe.

É preciso ser abnegado, o Buda ou o JC, para permanecer junto de alguém assim, seja em que tipo de relacionamento for. O Amor, neste caso, não resolve, a solução é a distância, pois o comum mortal tem obrigatoriamente de se proteger deste espécime, e a única forma de o fazer é afastando-se, não querendo qualquer tipo de contacto, físico nem verbal, já que uma das características deste tipo é uma lábia sem tamanho. Mas é só conversa, muito paleio para praticamente nenhuma ação, muito aparente apoio moral para pouco apoio prático, de facto, aquele que te permite crescer. A coisa chega a um ponto em que não é preciso mais nada, basta uma marcação de território básica, um telefonema, um sms. E a rede da armadilha na qual já caímos faz tempo, e nem nos apercebemos, entretidos que estamos em tentar fazer dele alguém que é amado, torna-se cada vez mais embrulhada. É isso que o alimenta, configura um dos mais altos graus de narcisismo. Aqui, homens e mulheres diferem, o homem quer o séquito, a mulher um escravo emocional, de preferência que a banque financeiramente. É de verdadeiros predadores que falamos aqui.

Uma das formas pelas quais nos sentimos presos é pelo facto de, mesmo que não nos consiga convencer de que estamos errados em relação à sua personalidade, planta a dúvida na nossa cabeça, que é o suficiente para nos prender. Seja fazendo-nos sentir culpados, pouco intuitivos, paranóicos, o que for, desde que mine a nossa autoconfiança, é o suficiente.

De nada adianta termos um intelecto forte, sabermos da vida e das coisas da cabeça, inclusive, o estratagema é descoberto antes do envolvimento, mas, por algum motivo, seja para nos provarmos a nós mesmos que estávamos certos, seja pelo que for, somos irremediavelmente atraídos até à dependência, que é emocional, sempre. Por causa da tal necessidade vital que é aparentemente preenchida e que funciona como uma droga, quanto mais consumimos, mais queremos. E quanto menos temos, maior a crise de abstinência, mais vontade nos dá de correr para ela. Sempre à espera da sensação primeira, que, como sabemos, nunca mais vem, nunca mais. E a partir daí, é ladeira abaixo, até que nos desviemos para o primeiro beco que nos aparecer pela frente e desapareçamos para sempre.

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