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Miríade

12/04/2012
As pessoas falam muito da ditadura dos ricos. Dos que não nasceram numa classe beneficiada pelo dinheiro não terem oportunidades. E afirmam isto categoricamente, em jeito de verdade absoluta. Que os ricos podem tudo e os pobres não podem nada. 
Podia falar da ditadura dos bonitos e dos feios, dos magros e dos gordos, dos racionais e dos sentimentais, dos frios e dos quentes, dos brancos e dos pretos. Podia rebater com o argumento: por essa ordem de ideias, todos os ricos são ricos para sempre e todas as pessoas humildes são humildes para sempre, o que não é verdade. Estamos cheios de exemplos que contradizem isso. O Brasil, por ser enorme e ter quase 200 milhões de habitantes é um excelente exemplo, está cheio de gente humilde que, porque vive numa favela, não mata nem trafica drogas. Nem rouba. Simplesmente trabalha e estuda, quando quer, quando pode, se for essa a sua vontade. E vive muito bem com isso. É mais feliz do que muita gente que conheço a quem não falta nada. E de gente poderosíssima que não pensa duas vezes em mandar matar porque sim, em roubar porque acha que pode, que faz parte. E vive infeliz, apesar de ser rica. E faz a vida dos outros num inferno, apesar de não lhe faltar nada…
Mas não, prefiro apenas alertar para o facto de não vivermos na Índia, graças a deus, e para o facto de essa condição de nascer filho de sapateiro poder ser revertida e a pessoa, qualquer pessoa, poder chegar aonde quiser. Tem é de querer muito, ou ter um grande talento e não o desconsiderar, e, nos casos em que a vida não lhe é facilitada, trabalhar mais pra chegar até aí, seja esse aí aonde for. Ninguém morreu até hoje por causa disso, ao que sei… 
Pela parte que me toca, se tivesse nascido em condições financeiras desfavoráveis, não nasci e não tenho vergonha nenhuma disso, muito menos tenho sentimentos de culpa por causa disso, ficaria puta da vida se me dissessem que não poderia chegar aonde quisesse porque sou pobre. Isso é desconsiderar as capacidades e as vontades de cada um. Não há pior sentimento de superioridade do que esse, o que é disfarçado de falsa consideração, de falsa condescendência. Usar as condições menos favoráveis dos outros para nos sentirmos mais gente, porque demos 2 reais a um menino no semáforo e achamos que fizemos a nossa parte, é coisa para me deixar doente.
Nós temos todas, todas as possibilidades, somos um campo de probabilidades infinito, podemos dar certo ou não. Mas grande parte do nosso sucesso ou fracasso depende apenas de nós e só de nós.

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  • Diana 12/04/2012 at 14:35

    Mas hoje em dia não tens direito a nada. Nem a ter uma condição financeira favorável, sem que alguém te tente por um peso na consciência por causa disso. Querem que faça o quê? Vá morar para a rua? Então vamos todos, para a rua, viver ao relento, com frio, sem comida e sem sopa dos pobres, pq se somos todos pobres, não há quem a faça… Que cegada. Estou com medo de onde isto vai parar, a sério.

    • Isa 12/04/2012 at 16:02

      é bem verdade isso, Diana, peso na consciência porque nascemos bem. é um miserabilismo nojento. Olha, um amigo, que é meio louco, é que tem razao: outro dia lá no bar dele apareceu um morador de rua a pedir. ele respondeu, para mim, já paguei, já dei, vá lá no (nao me lembro o nome) reclamar a sua parte. vá pedir pro governo, eu já paguei. e meu, ele tem razão…

    • Diana 12/04/2012 at 20:15

      A sério, esta coisa da inveja, acaba comigo. Porque isto tudo se resume a inveja. Caneco.

    • Isa 12/04/2012 at 20:20

      Putz, não acho que seja inveja não. é bem mais profundo do que isso :)

  • Espiral 12/04/2012 at 23:09

    Assunto complicado…

    Talvez porque veja há minha volta muitas pessoas que se encostam e muitas vidas facilitadas porque nunca tiveram problemas financeiros. pessoas que "e porque não" vão de sabática uns meses fazer isto ou aquilo (ir à India por exemplo) e a seguir 2logo se vê" porque têm quem lhes abanque ao fim do mês, ou que podem fazer cursinhos de 2000 ou 300

    • Isa 13/04/2012 at 16:53

      Não é tudo igual, não somos todos iguais e estamos longe de querer as mesmas coisas, de nos preenchermos com as mesmas coisas. o que quis dizer é que nós somos uma miríade de possibilidades, de probabilidades. e escolhemos quem somos e quem queremos ser. o que nao vale é queixarmo-nos depois. responsabilidade pelos nossos atos, palavras e omissões, é aí que quero chegar ;)

    • Espiral 13/04/2012 at 17:16

      Ah ok =)

      Aí concordo de todo =)
      Independentemente do que acontece podemos sempre escolher ser algo, fazer correcto ou incorrecto.

      Assim ao bom estilo do "Mentes Perigosas"

  • Ana 13/04/2012 at 16:03

    A cada post que passa cada vez gosto mais deste blog. Muito bom!

    • Isa 13/04/2012 at 16:51

      :) cheers

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