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Muito mais poeta do que músico

13/10/2016

Bob Dylan ter ganho o Nobel da Literatura é, para mim, motivo de enorme júbilo. E não porque goste dele mais do que gosto de qualquer outro músico, mas porque vejo nele um poeta, que musica (vamos fazer da música um verbo) os seus próprios poemas. Porque é um artista, porque a literatura é uma arte, e porque estou cansada de ver a palavra arte apenas associada às plásticas, à dança e à música, com generosidade, ao cinema. Por isso, esta fusão pela Academia Sueca entre a música e a literatura é, na minha opinião, muito bem-vinda, acaba com a ilusão de que as coisas são estanques, estão encerradas em categorias, e funciona como um abre-olhos para que se veja beleza, poesia, arte, beleza poética, na literatura. E se veja a literatura enquanto espaço onde toda a exultação possível da beleza poética possa expressar-se. Poesia que tem pouco a ver com a capacidade de fazer rimas e mais com a de descrever o que nos vai na alma, o que vemos, com profundidade, beleza, empatia, verdade, vulnerabilidade, que é a única forma de chegarmos a algum lado, de nos mostrarmos, de nos verem com olhos de ver, os da alma. É o que fazem os escritores dignos desse nome. Ninguém melhor para expressar o que vai na alma da humanidade do que um poeta. E nada mais democrático do que a música para levar essa leitura longe, permitindo que qualquer um a alcance, bastando para isso estar de olhos e coração abertos. Parabéns, Mr. Bob Dylan.

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