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Mulheres portuguesas

16/11/2013

Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão. Miguel Esteves Cardoso, In: “A causa das coisas”.

Claro que é muito bom sabermos que conseguimos correr com um bando de espanhóis à pazada, se acaso nos pisarem os calos e quiserem entrar por territórios que não lhes pertencem. As mulheres portuguesas, como diz o Miguel Esteves Cardoso, são isso e muito mais. Levam famílias inteiras às costas, sustentam filhos, apoiam maridos, cuidam dos familiares doentes e ainda trabalham fora. E em casa, que nem umas gatas borralheiras, se for o caso de não terem ninguém que lhes cuide dos filhos, lhes faça as limpezas e lhes cozinhe refeições. Somos sem frescura, mulheres fortes, com pêlo na venta e costas de aço, achamos que temos de aguentar tudo, caladinhas, cumprindo as nossas obrigações, à conta do estigma da padeira.

Todas nós temos exemplos desses em casa, todas nós somos, de alguma forma, padeiras de Aljubarrota. Só que o preço que pagamos é alto demais. Mal nos permitimos impor limites, mal nos permitimos admitir e assumir vontades, quereres, mimimis em geral. As nossas emoções, o nosso lado menina, que quer atenção, carinho, mimo, manifestações de apreço, reconhecimento, fica completamente renegado, posto de lado e, ainda que sintamos a falta de tudo isso, não o conseguimos expressar de forma saudável, esperando que o outro perceba, o que, claro, não acontece, acabando por cair muitas vezes no jogo dele, perdendo a paciência e, não querendo o outro contrariado, não querendo sentir pesos na consciência, deixamo-lo ir, aguentando muita coisa sozinhas, coisas que deveriam ser aguentadas, partilhadas, divididas entre ambos, por pertencerem a ambos, ao acordo que ambos fizemos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.

O estigma de duronas acaba por convencer, é o papel que sempre representámos e nem sequer nos reconhecemos noutro, sentimo-nos mal, como se permitirmo-nos sermos mimadas, acarinhadas, poupadas fosse um atentado às nossas capacidades, uma ofensa à nossa honra, sabe deus que mais. E não nos permitirmos não receber o que merecemos acaba por tornar o fardo que já carregamos pesado demais. É natural que os gajos não saibam o que fazer, mas muitas vezes é porque nós não lhes dizemos o que queremos, mesmo, de verdade, não nos permitimos ser mulheres, mas sim arraçadas de macho. Acabando por inverter os papéis em muitas circunstâncias, eles ficam com a nossa proteção e nós com o ónus do sentimento contido. E isso, já se sabe, tem um péssimo resultado, amargura, reclamação, má disposição, confusão generalizada em casa e em tudo o resto, principalmente no nosso coração, com a cabeça, o lado esquerdo do cérebro, a insistir na esquizofrenia do controlo, enquanto não aprendermos a reconhecer as nossas emoções, a olhá-las de frente, a assumi-las, a respeitá-las, a aceitá-las, a honrá-las e, acima de tudo, a fazê-las valer, sem culpa…

@Abr. 13

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  • Fuschia 09/04/2013 at 15:03

    Isso até parece que veio a propósito do livro que comecei a ler "mulheres que correm com lobos", da Clarissa.

    • Isa 09/04/2013 at 21:29

      já me falaram várias vezes nesse livro, já o comprei e não consegui lê-lo, faz um tempão, e nc mais lhe peguei. Mas diz que abre cabeças…

    • Fuschia 10/04/2013 at 09:17

      Aqui em PT está esgotado, tive de andar a procura em alfarrabistas. Até agora estou a gostar, se bem que as interpretações parecem-me ser muito próprias da ideologia dela, não sei se concordo em absoluto em tudo, mas é interessante.

  • S* 17/11/2013 at 08:52

    Engraçado, eu sou o oposto. Tenho ar frágil. Sou muito risonha, muito sorridente, pelo que qualquer incómodo se reflecte logo no meu rosto. Não tenho disfarçar as minhas mágoas e muito menos me faço de dura. No entanto… sou muito mais dura do que o meu rosto mostra. Sou forte, sei que o sou… embora pareça frágil.

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