Na corrida como na vida

17/10/2020

Três meses depois de deixar de fumar, estou a correr quase 6 km outra vez. A corrida tinha deixado de me entusiasmar a partir do dia em que nunca mais voltei a sentir o runner’s high. Aquele momento único que acontece depois de ultrapassada a sensação de exaustão física, em que se sente uma conexão com o todo, cosmos incluído, difícil de descrever. Transcendência absoluta.

A vida sem magia não me interessa…

Desde então, nunca mais voltei a sentir. Mas voltei a correr.Interessa-me mais sustentar do que desafiar, ir além dos limites, procurar buscar a sensação da primeira vez.

Como os adictos.

Não é à toa que se chama high, o equivalente em inglês a, em português comum, uma valente moca. O estado psíquico produzido pelo efeito de drogas.

O runner’s high é um vício como outro qualquer e, como tal, tem o mesmo efeito do desejo: consome-te e deixa-te à fome.

A magia está em todo o lado, não precisa de ser autodestrutiva, o que acontece sempre que se torna um vício, um propósito único.

Nesta fase da vida, em que encerro assuntos e me concentro no que não quero deixar de fazer, deixar feito, melhor dizendo, interessa-me consumar mais do que consumir. E por isso a minha postura na corrida tem sido diferente desde o primeiro dia. Ainda que inconsciente. Preocupei-me mais em sustentar, conseguir chegar até ao fim sem vacilar, do que em correr atrás do pote de ouro no fim do arco-íris.

Chego mais longe…

Não vivo sem magia. Mas a magia, tal como a felicidade, está nos detalhes. E não em estágios permanentes. A magia são nano segundos, não uma vida inteira. Uma pessoa, um lugar, uma coisa. A magia está nos olhos e nos corações de quem para ela está desperto.

E a minha capacidade de maravilhamento nunca me deixou ficar mal…

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