Na zona

13/08/2020

A primeira vez que ouvi falar de zona, estar na zona, in the zone, foi numa das centenas de faltas feitas ao Cristiano, à entrada da área, e consequente livre direto. Pega na bola, põe-na debaixo do braço e, completamente alheado do que se passava à sua volta, os jogadores da equipa adversária em cima do árbitro, o desinço do costume que antecede um momento que pode ser de golo, põe-na na marca, dá três passos atrás, abre as pernas, olha a bola, o ângulo que quer dar-lhe, tenho a certeza de que ele vê a coisa toda acontecer antes de chutar, e chuta para golo.

E marca.

As imagens são incríveis. Ele não quer saber de nada. Não vê nem ouve. Câmaras, colegas, adeptos, críticas, insultos. Sequer a barulheira no estádio. Parece não estar ali. E não estava…

Estava na zona

Lembro-me de achar invejável aquela capacidade de concentração, com tanto que podia perturbá-lo, desconcentrá-lo.

Ontem, num filme bonitinho, com dois dos meus atores mais queridos, a Keira Knightley e o Mark Ruffalo, em que ela escreve letras de músicas, ouvi de novo. O amigo dela diz-lhe: isso é uma excelente frase para uma música que tu deverias escrever já. Atira-lhe um bloco e diz-lhe: Do it, you’re in the zone. Miseravelmente traduzido por: estás na onda. Os brasileiros têm um problema maior, já que a zona não é um lugar onde se recomende estar… A tradução à letra não é muito feliz, teria de se acrescentar algo para que fizesse sentido.

Zona de qualquer coisa.

Quando me lembrei de um filme belíssimo que tinha visto há dias, com o Russel Crowe, chamado pais e filhas, em que ele é escritor. E de ficar extasiada a olhar para ele a escrever, a casa num caos, a filha a precisar de cuidados, ele nem aí…

Se há atividade propícia à zona é a criatividade. E esse é o meu lugar preferido para estar. Na zona.

Onde mais nada existe a não ser a criação. O contacto com a fonte interna que jorra palavras, frases, ideias, imagens, até. De lugares onde nunca estive, com gente que nunca conheci. Acontece quando alguém me pede um texto. Ou para desenvolver uma ideia.

A zona é onde a magia acontece. E onde mora o artista que há em mim

Ao contrário do que se pensa, não é um alheamento, o desconectar do mundo comum, a entrada no mundo interno, perdendo o contacto com a realidade. Pelo contrário. Mais e maior contacto com a fonte da vida não há. E dificilmente haverá processo de que mais gosto.

O nascer de uma ideia, ver que se firma, outras ideias começarem a surgir, como pontos distintos e longínquos no mar…

E entrar na zona.

Entrar na zona é ver esses pontos aproximarem-se uns dos outros. E outros a nascer. É não pensar ou fazer outra coisa a não ser reunir tudo o que há para reunir sobre o tema. Sair para a rua e não ver ninguém, só as ilhazinhas a formarem-se no cérebro, os olhos no céu, as pernas que se movimentam sem consciência alguma, automáticas nos passos, a ideia a crescer, a formar-se, a dar lugar à pergunta: como unir tudo? Sem que seja necessariamente preciso um fim, basta um início, uma ideia, e deixarmo-nos entrar na zona. O todo de nós fará o resto… E o processo é a melhor parte…

Entrar na zona é uma forma de transcendência.

E poucas coisas me estimulam mais do que transcender…

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