Não é bem assim

16/09/2016

A polémica da vez esta semana no Brasil foi não sei quem que disse que comeu a placenta, espero que a própria, e que a dava a comer ao filho recém-nascido. Pela parte que me toca, acho um nojo, mas também acho um nojo comer caracoletas, gafanhotos, cães e rãs, está esclarecido o que penso sobre o assunto e dos nojos de cada um, cada um sabe. Vozes se levantaram iradas a dizer que achavam nojento, repugnante e outros mimos. Vozes outras vieram dizer que se a pessoa gosta de comer placentas, ela que coma, se é gay, ela que seja, (a comparação é infame) e por aí fora que ninguém tem nada que se meter na vida alheia. Não é bem assim…

Muitos se lembrarão da foto que certa jornalista que por acaso também é blogger publicou na internet, a do filho com o queixo aberto. Não estamos a falar de uma ignorante, é uma jornalista, com estrutura, acesso à informação, a remédios e a terapeutas. Com família e amigos dispostos a ajudá-la. Com recursos, imensos recursos.

Há pouco tempo deparei-me, absolutamente incrédula, com outra jornalista, que por acaso também é blogger, a parir em direto para o youtube. Não foi bem assim, mas quase. Eu, que não a conheço de lado nenhum, vi a filha dela acabada de nascer, ainda nem sequer a tinham limpado, ao colo da mãe, que chorava baba e ranho. Os irmãos da miúda que acabou de nascer viram-na depois de mim. Isto está no youtube e no blog dessa jornalista. Com comentários de gente que nunca a viu, não a conhece de lado nenhum, a achar lindo e a agradecer a “partilha”, palavra com a qual começo a embirrar com alguma violência.

No facebook, conhecida brasileira está grávida e aparece, em fotos PÚBLICAS, nua, toda cagada de lama, a espolinhar-se no chão, sentada junto a uma árvore, numas poses e numas figuras que só alguém muito perturbado da cabeça pode considerar bonito, arte, sagrado e o diabo a quatro. O diabo, sim, só pode ser coisa dele… Noutras, aparece com o marido, nu também, tendo ambos o cuidado de tapar as partes pudendas, não vá alguém achar aquilo uma pouca vergonha, afinal, temos de nos proteger. Fotos essas cheias de likes e de luz e de comentários de beleza e gratidão.

E eu – ainda que adepta confessa da liberdade e do cada um fazer o que bem lhe apetecer desde que respeite as regras básicas da vida em sociedade, em casa pode tirar fotos todo nu agarrado ao candeeiro do teto da sala que é para o lado que durmo melhor – que sou um bocado obcecada com privacidade e me faz muita confusão a exposição, principalmente de gente que não tem maturidade para decidir se a quer, pergunto-me se esta gente não tem amigos, família, um padre amigo, um terapeuta, um médico da cabeça que lhes dê um toque. Que lhes diga: olha, é o seguinte: isso que tu estás a fazer é sinónimo de carência, de alucinação momentânea, de esquizofrenia, é sinal de que qualquer coisa não está a funcionar no teu cérebro. Isso que tu estás a fazer é algo que te escapa à consciência, é alguém muito doido que mora aí dentro da tua cabeça que está à solta e o teu ego não conseguiu conter. Olha, talvez precises de uma compensação química qualquer, mas pode ser que umas sessões de terapia resolvam.

E isto não é moralismo, não é meter-me na vida das pessoas, não é impedir que gente que faz coisas que me incomodam continue a fazê-las, isto é gente que precisa de validação e eu não valido loucura, insanidade, porque não há limites para o desejo esquizofrénico dos 5 minutos de fama, porque por esses 5 minutos o preço a pagar é muito alto, porque isso não tem fim. Qual é o limite?

Isto, pelo contrário, é gostar delas, é preocupar-me seriamente com a sanidade mental delas, é alertar, fazê-las, pelo menos, tentar dar um passo atrás e repensar a vida, as atitudes, as consequências. Depois, claro, elas que façam da vida delas o que quiserem, eu estou de consciência tranquila e tenho os meus limites, além do direito de não querer assistir.

Chama-se não responsabilidade pelo outro, ele é adulto, faz o que quiser, mas para com ele e esse é um dever nosso, de quem lhe é próximo, de quem dele gosta.

E não me venham com o argumento: há coisas piores. O facto de haver gente a matar-se em direto no youtube não torna tudo o que acabei de descrever bonito, lícito, menos mau ou até bom. Tal como o facto de ter havido um Jack o Estripador não torna o assassinato de uma pessoa um crime não punível.

E se um gajo é chegado numa placenta, que a coma sossegado e escolha um bom vinho para acompanhar, escusa é de dividir essa aberração com o mundo. Talvez se não o fizer, a vontade de atacar uma placenta lhe passe. Não, nem tudo é partilhável e por mais que vos doa, o resto do mundo não quer saber do vosso parto, da vossa gravidez, de nada que seja íntimo, porque, lá está, é íntimo e o que é íntimo deve ficar entre quatro paredes.

*Aposto que se chocam imenso com o livro novo do Saraiva, como eu me choco, precisamente por isso, porque viola a intimidade e trai a confiança de quem teve a coragem de se permitir a ela em privado com alguém em quem confiava.

Depois a terapia é para os malucos, os suicidas, os que não têm amigos, ‘Tá certo…

  • Camila 17/09/2016 at 11:03

    Penso o mesmo, as redes sociais, sobretudo no Brasil, há tempos são um festival de piéguice e exposição. Por onde a elegância da intimidade? No mais, fico com o úlitmo parágrafo do seu texto, para mim é uma traição à sutileza dessa troca.

    • Isa 17/09/2016 at 20:09

      Elegância da intimidade, perfeito.

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