Não é a pandemia, é a paranóia e a tirania*.

30/03/2021

Já chegou ao Expresso e tudo. Vamos continuar a assobiar para o lado?

Portugal, em 46 anos, decretou o Estado de Emergência (na verdade, o Estado de Sítio) uma vez: foi em 1975, quando a consolidação democrática esteve em risco. Desde o ano passado, porém, para dar resposta à crise pandémica, decretou-o 15 vezes: pondo, involuntariamente, quero crer, a consolidação democrática em risco.

Ah, mas e a pandemia e a saúde pública?

Lamento: nem isto, nem a maior parte dos dislates a que temos assistido na operacionalização dos estados de emergência, são sobre a pandemia. Pelo contrário. É, aliás, precisamente porque a pandemia deve ser levada a sério e o estado de emergência respeitado, que conviria combater a paranóia com racionalidade e impedir a tirania com determinação. Têm dúvidas? Em que lugar, que não um hospício ou uma autocracia, é que os cidadãos são multados por estarem a comer, sozinhos, numa casa de banho, gomas na via pública, ou uma sandes dentro do carro? Repito: isto não é sobre a pandemia, mas é tudo sobre a paranóia e a tirania.

Vejamos melhor: com o pretexto do combate à propagação do vírus, o governo impôs um sem número de regras e excepções que empobreceram o país, limitaram a liberdade e erodiram a autoridade legítima do Estado. As regras e excepções foram tantas que há muito já ninguém, verdadeiramente, sabe o que pode e o que não pode fazer. Ora, nenhum Estado que se respeite e se queira respeitado se entrega a estes equívocos e desmandos. E um país que amasse a liberdade e a democracia dispensaria – com um manguito – qualquer tiranete que dissesse, sem , que “seremos tão autoritários quanto nos obrigarem a ser”.

Eu sei que o caminho já vai longo, e que o vírus era novo, e que se sabia pouco a seu respeito. Mas alguém – mentalmente são – é capaz de explicar por que raio é que se acreditou que a venda de bebidas alcoólicas depois das 20.00, a venda de livros (nos hipermercados a sua secção esteve delimitada com fitas de demarcação de perigo!), o consumo de bebidas alcoólicas na via pública, ou as aulas à distância ministradas por quem estava preparado para as leccionar e receber, aumentaria o risco de contágio? Isto tudo num ano em que, em contrapartida, as celebrações do 25 de Abril, as manifestações do 1.º de Maio e a Festa do Avante não ofereceram, aparentemente, risco agravado. Isto tudo quando a fiscalização paranóica começa a dar sinais de abundar e os rastreadores, esses, continuam a faltar.

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