Natalie e Julia

13/03/2017

Comecei por me apaixonar pela Julia, por causa do viés psicológico e terapêutico dos seus livros. Mais do que pelo lado prático das propostas de exercícios, que são sempre imensas. Depois conheci a Natalie. E li o seu mais famoso livro mais rápido do que qualquer um dos da Julia. Não me apercebi. Só ao terceiro, o Wild Mind, me consciencializei. E a Julia começou a irritar-me. Lia os livros da Natalie em dois dias e quase me obrigava a acabar os da Julia. O que, em mim, nunca foi bom sinal. Ainda que me fosse estranho.

A Julia é boa, caramba, os livros são incríveis, mas o tom começou a descompensar-me ligeiramente o nervo. A postura maternal controladora: “agora vais fazer isto, desta maneira”, eriçou imediatamente os pelos do pescoço da loba selvagem que habita o canto mais escuro da minha cabeça.

Criatividade implica liberdade

Natalie

Mais ainda por causa do contraste com o estado em que os da Natalie me deixam, nomeadamente o último que li, de longe o melhor. E não necessariamente o mais famoso, que é o writing down the bones, um título felicíssimo e do qual tenho alguma pustulenta inveja. Chama-se Thunder and Lightning e qualquer coisa que leia depois me parece pobrezinho. No caso, o último* que tenho disponível da Julia para ler, sem contar com um que se assemelha mais a um manual e portanto deverá ser lido com alguma parcimónia e contenção.

Aguento tudo, menos manuais How To, acho-os pouco criativos.

O mais engraçado é que a Julia passa a vida a diminuir terapeutas e terapia, mas o que escreve é sempre, sempre nessa linha, chegando a fazer referência a Jung, e quase nada literário. E os exercícios que propõe terem um efeito e um viés igualmente terapêuticos.

E se por um lado me sabe maravilhosamente ouvir, por me validar e por ser no que sempre, sempre acreditei, essa visão mais artística do métier, e por isso me alimentar a esperança, começo a achá-la meio romantizada, ainda que sinta que resulta… Além de que não se coaduna com o tom que é usado nem mesmo com o que é dito, forma e conteúdo. Parece que está a tentar convencer-nos de algo, ou a ela… 

Para além de fazer uma coisa que o Mário de Carvalho no seu: Quem disser o contrário é porque tem razão, que me foi aconselhado pelo meu querido Joel, critica: a autorreferência. O eu sou boa porque fui casada com o Scorsese. Ando nisto há anos. Escrevi trocentos musicais, setecentos filmes e o meu livro do Artista é um best seller. Em suma: eu sou a maior da minha aldeia.

Fico sempre com a ideia de que nunca ninguém ouviu falar nela. O que, naturalmente, é apenas fantasia minha, independentemente de não me passar muita confiança.

Sempre gostei mais de gente que faz, de preferência caladinha, do que gente que vive de dizer o que já fez.

Ao contrário da Natalie, que não está nem aí. E de quem já encomendei os únicos três livros que me faltam de todos quantos escreveu sobre o métier. Inclusive um sobre memórias, tema que não me interessa muito, convicta de que valerá a pena precisamente por causa do viés criativo com que será certamente abordado. E do estado de conexão e de apaziguamento em que me deixa, sempre.

Mais eficaz do que ter alguém a tentar convencer-nos é ter alguém que no-lo faz sentir.

E dei por mim a pensar se as duas não serão a representação do dilema que vivo há uns tempos. E que tinha decidido recentemente não mais ver dessa forma. Abraçando um e outro. Arranjando maneira de conviver de forma amena e sã entre dois opostos que me são tão queridos e tão meus.

*É excelente…

  • Helia 13/03/2017 at 13:40

    Bem e eu que leio tanto fiquei espantada de não conhecer nenhuma das autoras de que falas e também curiosa. Aconselhas me alguma delas e algum livro para começar?

    • Isa 13/03/2017 at 14:25

      Ambas escrevem ficção, mas só conheço o que escrevem sobre escrever :) Nesse campo, da Natalie, aconselho o writing down the bones (é o livro referência dela) e da Julia este, o right to write (ela é a autora do desafio artist’s dates, que podes conhecer melhor no livro dela chamado The Artist’s Way). É como digo, a julia cameron mais terapêutica a natalie goldberg mais zen/criativa. ;) A verdade é que o método da Julia funciona, apesar de às vezes não apetecer… :)

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