2016

31/12/2016

Em 2016, não raras vezes desejei ardentemente apagar o ano do calendário, dar como não existente, rasgar a página e acreditar que tudo se resolve. Por conta dos exageros da época, acometeu-se-me a vontade de arrancar do calendário, e das coxas, esta semana em particular.

Nunca faço balanços de fim-de-ano muito menos promessas de ano novo. Não me faz muito sentido. Além de que teria de me lembrar do que aconteceu. Não me recordo nem do que fiz no mês passado…

2016

Não sou da turma pensamento positivo. Aliás, a turma pensamento positivo/gratidão dá-me nos nervos com alguma frequência. Nem de fingir que os problemas não existem. Que não estou chateada, que está tudo bem, que não me custa, que não doeu. Acho essa atitude até um bocado infantil. Sou de viver as coisas, tristes ou alegres, e de me prender eternamente a situações o menos possível.

É para chorar, choremos. É para dançar, dancemos. É para rejubilar, rejubilemos. É para mandar tudo pra pqp, mandemos. Sou de me manifestar, de reagir. Mas também sou próvida, apesar de ter uma pulsão de morte forte. Morrer para renascer é o meu mo, uma canseira, mas não consigo viver de outra maneira.

2016: O universo arranja sempre maneira de equilibrar as coisas

Por isso, quando pensava em limar 2016 do calendário, lembrei-me que nem só de morte se fez o meu ano. E independentemente de nada compensar a partida do David Bowie, do Prince, do Salvador e do meu pai, não necessariamente por esta ordem, entre outros términos que ocorreram este ano, que deveria ser estudado.

Tenho até o que agradecer. E mais do que isso, o que reconhecer. Quem apareceu de novo, o NP, o JN, dois homens que não têm como substituir o meu pai, nenhum homem tem, mas são dois modelos masculinos que, mesmo sem saber ou querer, têm sido dois faróis, cada um de seu jeito, orientando-me no meio do breu. Quem decidiu ficar apesar de tudo, o LG, os que se mantiveram e até quem decidiu ir-se embora da minha vida. E não se trata de pensamento positivo, de racionalização das emoções. A verdade é que pactuo com a Marylin nisto:

Se não me aguentas no meu pior, não me mereces no meu melhor.

Em 2016, exceto uma ou duas, todas as minhas amigas mais chegadas de SP me visitaram em Lisboa, duas delas escolhendo a minha cidade para passar o aniversário.

Outra veio em jeito de pit stop no eixo: Berlim-Lisboa-São Paulo, proporcionando-me uma das noites mais especiais da minha vida. E não, não se tratou de sexo tórrido, selvagem e lésbico. Mas de uma dúzia de horas incríveis e absolutamente inesperadas, em que nos entregámos ao momento e nos esquecemos do tempo.

Quero cada vez mais isto para mim. Espontaneidade é o nosso nome do meio.

Apanhei-a no aeroporto às dez da noite, fomos à Pensão Amor beber uns canecos e dançar, pusemos a conversa em dia, depois de dois anos de ausência, da minha volta e da experiência dela a morar fora, num país que é quase a antítese do Brasil. Viemos para minha casa comer massa feita por mim às 4 da manhã e levei-a ao aeroporto no dia seguinte, às 9. Constato que não passou tempo nenhum e que isto da globalização é maravilhoso. Ela é um dos motivos pelo quais não posso arrancar a semana em curso do calendário.

Não sou vítima, muito menos pateta alegre.

Também conheci África, a negra. E muito bem me fez. Portugal foi pela primeira vez campeão europeu de futebol. Deixei de fumar e comecei a correr, fazendo-o por 7km.

É capaz de ter sido o ano que mais e melhor escrevi. Com temas a passar à frente de outros por força das circunstâncias. E até nisso tenho o que agradecer. Virei-me mais para a criatividade, o meu lado artístico, do que para a psicologia. Descolei-me da imagem de blogger. Assumi o meu nome, a minha cara, a minha biografia publicamente. Quero fazer da escrita vida, sou escritora. Tive o post mais partilhado de sempre, este, com mais de 14 mil likes e partilhas, o que me encheu de orgulho e alegria.

O problema de eliminar do calendário é que vai tudo junto. O mau e o bom. E eu não sou da turma que gostaria de limpar a memória, por mais dolorosas que algumas sejam, porque as boas também vão.

Por isso, 2016, apesar de me teres levado a pessoa que mais temia perder neste mundo, nos privares do Bowie e do Prince, seu sacana, precisavas de levar os dois ao mesmo tempo? Estou-te reconhecida. E ao Universo, ainda que talvez pudesse pegar um pouco mais leve nos próximos anos, para dar tempo de me recuperar.

error: Content is protected !!