No cabelo como na vida

15/02/2016

O meu cabelo não é liso, nem ondulado, nem encaracolado. É isso tudo ao mesmo tempo, em algumas partes liso, noutras ondulado e tem até um canudinho super querido aqui ao lado da orelha esquerda, que é completamente natural, não tenho de fazer nada para que se forme. E tem jeitos, imensos jeitos, o que o torna completa e irremediavelmente indomável, tem bem a quem sair…

Já não me lembro há quanto tempo insisto em tentar domá-lo, não o quero completamente liso, não tem nada a ver comigo, fica demasiado colado à cabeça e faz-me cara de lua, mas também não gosto do efeito abajur, muito menos do efeito frizz que ganha se não o seco, fica sem jeito nenhum e a paciência para o secar não é muita, leva horas… E era neste dilema que vivia há anos, ora o prendo com um elástico e ele leva todo o santo dia para secar, além de correr o risco de apanhar uma gripe com o briasco que se pôs agora, até parece que é inverno, ou ando por aí a achar que ‘tou abafando e chego a casa para me deparar com o triste cenário: Mafaldinha, em mau.

No sábado, na ida mensal aos salões para pintar o cabelo, e como não estava lá a miúda que me costuma tratar dele, fui atendida pela dona, que me fez a pergunta do costume: brushing? Lá lhe disse que o que costumava fazer com a Telma era tirar o excesso e ela dava-me um jeito à frente para ficar mais esticadinho. Foi aí que o milagre, a grande descoberta da pólvora se deu. Também podemos usar o difusor e aproveitar o jeito natural dele, disse a dona. Ora eu não faço ideia que porra é um difusor, mas aproveitar o jeito natural dele soou-me à oitava maravilha do século. O que é natural é bom, já se sabe.

Vocês, mocinhas letradas, sabem com certeza o que é um difusor, mas ainda assim eu explico: é um bagulho que parece um misto entre disco voador e nave espacial, aquele tinha luzinhas azuis e tudo, redondo, enorme, que basicamente em vez de afunilar, expande, ou seja, em vez de pentear, despenteia, é mais ou menos isto.

A mulher lá me começa a pegar em mechas de cabelo por baixo, levantando-as até quase à raiz, como se estivesse a amachucá-las, e a secar aquilo tudo assim. E não é que ficou bom? Cheio de ondinhas e selvagem, completamente selvagem, adorei. Já que sou selvagem, então vamos lá expressar isso. Houve um momento em que me pediu para baixar a cabeça e dar-lhe forte e feio com o secador por baixo, quando me levantei, com força, disse ela, fiz a força possível, andava aqui com um nervo no pescoço a doer-me como o raio, parecia a Tina Turner, em morena, com tons de vermelho. Por mim estava bom, mais um jeito aqui e ali e ‘tá feito, estava pronta para encarar o mundo. Mas ela teve a triste ideia de o empastar com espuma, que me dá um nojo tremendo porque me cola o cabelo e isso irrita-me, dizendo que fixa melhor. Ora eu não quero que fixe porra nenhuma, selvagem é selvagem, ora eça, só quero que fique minimamente apresentável. E fica, é um power de cabelo que nem vos digo nada.pig-pen-clipart-pig-pen

Claro que quando fui tentar fazer em casa, sem difusor, o meu secador tem mil anos, sei lá eu onde para o difusor, se é que alguma vez existiu, as ondinhas não ficaram perfeitinhas, e ouve partes que ficaram lisas que supostamente não deveriam ter ficado, mas o efeito frizz desapareceu, além de estar com um ar super hidratado, que não tinha. O efeito frizz foi a forma do meu cabelo me dizer que estava a ir contra a natureza dele e por isso rebelou-se, queria voltar ao seu estado selvagem, mas o máximo que conseguiu foi aquele efeito Pig Pen, o boneco do Snoopy que parecia que andava sempre rodeado de pulgas e era despenteado mental, com o cabelo a apontar cada um pra seu lado. O meu andava assim, em lavadinho.

No cabelo como na vida, o melhor mesmo é aceitarmo-nos na nossa essência, na nossa natureza, e, de acordo com ela, embelezarmos, valorizarmos, cuidarmos do que faz de nós, nós. O trabalho que dá contornar, o facto de não resultar e ainda de nos deixar irritados e frustrados, obrigando-nos a usar a força bruta – que, já se sabe, não leva a lado nenhum, a natureza é sempre, sempre mais forte e acha sempre, sempre um meio de conseguir expressar-se – para nada é redutor e uma perda de tempo e de energia vital. O que não é natural, além do mais, soa a falso e se nem a nós nos convence, que dirá dos outros.

E foi assim que assumi a minha wilderness. Quando não mais precisar dela, o cabelo há de dar um jeito de o refletir, disso estou certa. Para já, para já, vou desfrutar muito e bem do meu lado selvagem, é tão tão saudável… É onde residem os nossos instintos, que são o que nos mantem vivos e tão renegados foram para segundo, terceiro e quarto planos, por conta dos ditos avanços civilizacionais. Que me são garantidos, não preciso de ter medo de os perder, já os instintos andavam aqui há uma vida a reclamar o seu espaço, que é pessoal e intransmissível. Sejam bem-vindos, seus lindos.

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