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No outro dia acordei a pensar para onde tinham ido os meus últimos 20 anos

11/05/2016

Tenho uma amiga que faz hoje 45 anos. A próxima sou eu… Hoje disse-me que não tem problemas com a idade, há um mês tinha-me dito: 50 é muito…

Um dia destes acordei a pensar para onde tinham ido os meus últimos 20 anos. Lembro-me de ter 20 e poucos e de ouvir uma senhora dizer que a vida era curta. Do alto da minha inocência, pensei: ‘tá doida, a vida é enorme… Tinha-a toda pela frente, os anos passavam devagar e eu desperdiçava dias e dias seguidos, nas intermináveis férias de verão, por isso mesmo, tenho a vida toda pela frente, a fazer nada, achava eu… A vez seguinte que pensei nisso tinha 40… Ao me lembrar, no outro dia, de uma frase de uma “colega” de licenciatura em psicologia, a propósito de uma cadeira que queria fazer de ouvinte: uma amiga da minha mãe gostaria de frequentar esta aula… Uma amiga da minha mãe… Ela, com os seus 22 aninhos, não se identificava minimamente comigo, também não me identificava com ela, mas falava de igual para igual, e ela escusava de ser tão taxativa… Lembro-me agora das conversas que tenho com as minhas sobrinhas do coração mais velhas, a Matilde e a Madalena. E, sem me sentir da idade delas, honestamente, não queria, não trocava um ano dos 30s por uma década de 20s, sinto que falamos de igual para igual. Trato-as como as adultas que são e ouço-as com o mesmo interesse com que ouvia os meus professores. Temos sempre o que aprender uns com os outros, farto-me de aprender com os meus sobrinhos, de 4 e quase 8 anos, por exemplo… E acho que nenhuma delas me vê como: “a amiga da mãe”… O que me dá um certo orgulho e me tranquiliza o espírito que já foi mais inquieto.

Os 5 mexem comigo, é ali a fronteira entre o mais próximo dos primeiros cinco e o dos segundos, da década seguinte. Já aos 35 foi igual, e tenho uma vaga ideia de que aos 25 também, mas já não me lembro bem…

Ninguém me dá a idade que tenho, dão-me sempre bem menos, ainda nos 30s, por outro lado, ninguém ma tira e essa é a questão. Mantenho um espírito jovem, e com esta acabei de matar metade da minha jovialidade, uso roupas casuais, tenho uma mentalidade aberta, energia física para dar e vender e um childlike sense of wonder que me permite olhar para a vida como se fosse mágica. O problema são as cruzes… É no físico que noto, nos joelhos perros, nas pernas que demoram para recuperar o movimento, no peso do corpo. A cabeça está melhor do que nunca e isso é que é o diabo, ilude-nos. Lembro-me de o meu pai me dizer que aos 50 anos ainda estava convencido de que era um rapaz. Que aos 60 sentia-se com 40. Há pouco tempo perguntei-lhe: e agora, com quantos te sentes? 80, respondeu, a sorrir, tinha acabado de fazer 77…

No outro dia acordei a pensar para onde tinham ido os meus últimos 20 anos. E percebi que já não tinha a vida toda pela frente, outra vez, como aconteceu aos 40. Já vivi mais de metade da vida que me cabe, não conto chegar aos 80 sequer… E o que me bateu no outro dia foi que há uma série de coisas que já não vou viver, nomeadamente as que se prendem com a ilusão do romance, do amor, da relação que salva, que é tudo… Depois, pus-me a olhar para trás…

Faz este ano 20 anos que me licenciei em tradução. 20 anos… Um ano depois, estava a fazer um estágio no Parlamento Europeu e a ganhar dinheiro como gente grande. Foi aos 25 que percebi que a minha vida era aquilo, correr o mundo até me achar. Quis morar fora, desde os 28 que essa ideia não me largou. Só tive coragem para isso aos 38… Nesses dez anos, viajei o mais que pude, nos três primeiros, para a Europa, nos outros, para a Europa e para o mundo. Pensei em morar na Holanda, em Londres, mas achava que tinha de me “estabilizar” primeiro. Ahah… De vez em quando, olhava para a vida das outras pessoas, toda arrumadinha, e aquilo dava-me um misto de inveja e de pavor. Inveja pela suposta tranquilidade, pavor por imaginar que seria o resto da vida assim, deus me livre.

O problema são as comparações, só nos podemos comparar connosco, porque ninguém é igual a nós, escolheu a mesma vida, tem as mesmas questões, os mesmos desejos, a mesma forma de ver o mundo. Nós não queremos todos as mesmas coisas. Ou se calhar até queremos, usamos é meios diferentes para lá chegar, de acordo com as nossas prioridades, a prioridade das nossas neuroses, melhor dizendo…

Olho para trás e percebo para onde foram os meus últimos 20 anos. Ficaram na Europa, em Marrocos, na Índia, nos EUA e no Brasil, uma boa parte deles ficou no Brasil. E é isso que trago comigo. Essa experiência, essa descoberta, a certeza do meu caminho e a coragem para continuar a trilhá-lo. Essa é a viagem, a vida que se constrói, sem muita coisa para mostrar, mas visível na postura, na maturidade, na vontade, na tranquilidade mental conquistada no meio de tanta dúvida existencial.

Em Junho, faz dois anos que voltei e um ano que vim morar na praia. E agora apetece-me aquietar-me, firmar raízes, construir. Ficar aqui, na minha terra, com vista para o mar, concretizar, dar vazão a tanto conhecimento e tanta experiência adquirida, passá-los adiante, deixar um legado, do qual já usufruo, o usufruto está no caminho, no processo, e não no que conseguirei com isso. E encarar os meus próprios desafios, que se prendem apenas comigo e não com a vida lá fora, que é apenas um meio para os realizar. São desafios psíquicos, os que nos fazem crescer, chegar mais longe, mais fundo, mais dentro. E a maior prova disso é o que conquistei nestes dois anos. O que me permiti, o que abracei, o que perdi e o que ganhei. Pode não ser visível a olho nu, nunca é, mas vejo, todos os dias, os efeitos das pequenas conquistas, dos meus pequenos atos heróicos, da coragem com que vivo, com paciência, respeito, atenção e foco.

Às vezes é preciso olhar para trás, para poder seguir em frente.

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