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Nós e os espaços, os espaços e nós.

08/03/2012

Os ocidentais, ao contrário dos orientais, que se guiam mais pela intuição, guiam-se pela razão, pela lógica. O que, às vezes, é uma pena e, na grande maioria das vezes, dá um trabalho imenso, quando nos perguntam o porquê disto e daquilo, porque só uma explicação lógica, racional serve. Um simples “não sei” está absolutamente fora de questão.
Ontem fui à PUC, a PUC é o acrónimo para Pontifícia Universidade Católica. O conceito que temos de universidade católica em Portugal é um bando de aparentes betinhos, capelas, missas todos os dias e um lugar dito civilizado, porque muito conservador. A PUC São Paulo é todo um outro departamento.


Como não sabia onde tinha de sair no busão, perguntei a um rapazinho que estava ao meu lado, se aquele era o ponto, porque sabia que seria naquela rua. Ele respondeu, com um sorriso, giro que só ele, que não, que também ia descer, aqui desce-se dos autocarros, não se sai…, lá. Fiquei logo mais descansadinha e a minha ideia era ir atrás dele. Mas não, o povo aqui é querido que só ele, simpático, prestável e muitíssimo solidário. Fora que é brasileiro e portanto mete conversa imediatamente. Lá fomos os dois, rua afora, a conversar. Ele estava meio lesado, que é como quem diz, tinha acabado de fumar um, e perguntou-me duas vezes se era a primeira vez que eu ia à PUC. Respondi-lhe que sim, das duas vezes, com um sorriso. Em jeito de aviso, foi logo dizendo: ó, não se assuste, o pessoal pensa que porque é PUC é tudo playboyzinho, que é como quem diz, filhinho de papai, a PUC é cara como o raio, que é tudo bonitinho e direitinho, mas num é, viu? ‘Tá tudo pixado (grafitado), o prédio é velho, para um europeu tem meia dúzia de anos e, quando muito, seria antigo, e o povo fuma. Respondi-lhe que então estava em casa. Ó, ali é o teatro da puc, dizem, eu nunca fui lá. E a capela é ali. Nesta altura do campeonato já me ria muito. Porque o miúdo era engraçado, giro, e falava comigo como se me tivesse conhecido há meses sem fim.   

Entrámos e apaixonei-me imediatamente. O prédio é de facto antigo, mas nada comparado ao que temos na Europa em geral e em Portugal em particular. Está todo grafitado mas não assusta, porque não é pesado, porque o ambiente é do mais descontraído que pode haver. Achei que estava numa universidade pública da Holanda, com a grande vantagem de estar no Brasil. É tranquilo, muito, muito tranquilo. O povo parece que está num jardim, de férias. Tem uma série de recantos cá fora, fumódromos, o que em São Paulo é já considerado uma raridade, e as coisas vão ficando dos nossos lados, numa espécie de vão, nós vamos andando por um corredor, tudo ao ar livre, com escadinhas que nos levam a cada sala, seja de fotocópias, seja da secretaria. Com árvores, sombras e silêncios, deliciosos silêncios. Exceto o vozeirão tranquilo do miúdo, que me ia dizendo o que era o quê e onde. 


Entrei ali, aliás, logo do portão, que nem se nota, está aberto de par em par e só a presença de um segurança nos diz que é ali, e senti-me absolutamente em paz, sorridente, feliz. Não uma felicidade histérica, como quem força, uma felicidade pacífica. Podia ser sempre assim, onde e quem nos transmite paz a gente fica, tudo o resto a gente joga fora, rejeita, deixa pra lá. Sem justificações, sem lógica nenhuma. Simples assim.


A puc é um mundo à parte e eu por mim moraria lá. Não fosse carésima e ficaria a estudar lá o resto da vida. O miúdo disse-me onde era a secretaria e despediu-se com um beijinho. Giro que só ele…

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