Not a Material Girl…

29/07/2020

Sou muito pouco apegada a coisas. Ao material. As coisas, na sua grande maioria, servem apenas para acumular pó e ocupar espaço. A liberdade para adquirí-las não preenche uma necessidade. Pelo contrário, as coisas acabam por nos prender. Por não sabermos o que lhes fazer, impedindo-nos muitas vezes de nos movimentarmos. Física e psiquicamente…

Ainda que não sejamos nós sem as nossas coisas

Quando estou fora de casa, as minhas coisas dão-me um certo conforto. Talvez simbolizem a necessidade de enraizamento. De pertencer ao lugar do mundo onde estou, enquanto não faço dele meu.

Os livros são basicamente a única coisa material a que sou apegada.

Nesta viagem no tempo, apercebo-me do que já há muito sentia e sabia. É-me muito mais importante o momento, a experiência, o sentimento, do que o material. O tempo que me dedicaram, que pensaram em mim ao ponto de me escrever uma carta, um postal, que recebi de todos os cantos do mundo.

Olho fotos antigas e pergunto-me porque terei dado aquela bolsa. Onde para aquela roupa. Raramente me arrependo, embora algumas me dessem um jeitão.

Mas não me arrependo de guardar cartas e postais com mais de 30 anos. E fotos. E bilhetes de concertos, cujo ano tenho de pesquisar na net por já não me lembrar…

O digital facilita a vida e poupa espaço em gavetas e estantes.

Mas não substitui, nem de perto nem de longe, o material. As memórias escritas em papel, em cartões postais – no tempo em que os havia aos montes, em bares e restaurantes, de borla. E, antes disso, se vendiam em bancas de jornal. – em fotografias impressas e em rolos fotográficos por revelar.

Descobri 4 no outro dia…

Levei-os ontem à Instanta. Não faço ideia de que ano serão e que fotografias neles se escondem. Descobrirei na sexta-feira. Temo não mais me lembrar das pessoas, dos lugares, dos anos, das circunstâncias…

Não sou, de todo, saudosista.

No entanto, tenho rido às gargalhadas a ler cartas antigas que o meu irmão e os meus amigos me escreveram enquanto estive no Luxemburgo. E partilhado com eles algumas delas.

Devia ser uma chata do caneco com isso. Vi algumas referências a pedidos para não ficar desapontada por não receber cartas grandes. Escrevia cartas enormes e esperava o mesmo de volta. A minha incontinência verbal vem de tenra idade…

Adorava receber cartas. E escrevê-las.

E o coração tem-se-me derretido com as cartas e postais dos amigos que fiz aos 17 anos, quando estive três semanas em Inglaterra e me apaixonava todos os dias, por três rapazes ao mesmo tempo.

Ontem, um dos miúdos com quem trabalho dizia que não ouvia determinada coisa há muitos, muitos anos. Referindo-se ao ano 2000.

E eu aqui a partir a cabeça a tentar lembrar-me o que andaria a fazer em 1986…

E onde param uma série de registos desse e de outros anos.

Em 2003, comecei a escrever em blogs e não tenho quaisquer relatos de viagem impressos desde então. Exceto da viagem que fiz aos EUA, em 2006.

Se um dia as plataformas desaparecem, há uma chatice qualquer, tudo se perde. Fotos, memórias, relatos, registos de vivências, de experiências, de sensações, de emoções.

Vou imprimir tudo…

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