Livre

#NotInMyName

16/11/2015

Acima de tudo, porque quem usa outras tragédias para não se solidarizar com Paris é porque talvez não se solidarize com tragédia nenhuma (nada temam, empatia é uma qualidade, não um defeito), e eventualmente por uma questão de vaidade, a minha tragédia é mais especial do que a tua, mesmo que só me tenha lembrado dela quando falaste na tua, sério… Não se trata de decidir que tragédia vale mais, que vidas valem mais, mas restringir a barbárie do ISIS à Europa é estar a dizer que as 150 vidas ceifadas pelo ISIS numa universidade do Quénia valem menos que as de Paris. Talvez para o ISIS a Europa seja uma provocação maior, enquanto velho mundo, supostamente civilizado, preparado, avançado. Nós podemos mais, é este o recado.

Fui das poucas europeias que não adotou a bandeira francesa na foto de perfil, não me fez sentido… Usei um quadrado branco, pela paz, e este, aqui em baixo. E, ainda que não resolva nem adiante, se fosse parisience gostaria de ver que o mundo, por alguns momentos e simbolicamente, teve empatia pela tragédia que se abateu sobre centenas de vidas. No entanto, se fosse queniana, gostaria de saber que não sou cidadã de segunda…
candles

A mim o que me choca não é ter sido em Paris, é ter sido em Paris numa sexta-feira à noite, em restaurantes e esplanadas, salas de concertos e estádios de futebol. É ter sido numa universidade no Quénia. É a possibilidade de chegarem dois ou três malucos armados até aos dentes e, sem nada exigir, sem percebermos o que eles querem, desatarem a disparar indiscriminadamente porque sim, em lugares em que as pessoas simplesmente estão a divertir-se, ou a estudar. É a falta de critério, a falta de ética, sim, até na guerra há ética, a falta de alvo específico, de motivo concreto. A deslealdade, o não aviso, a impossibilidade de defesa. O que nos leva a pensar que qualquer um, qualquer um, está na mira destes alucinados que se julgam soldados de Deus e pior que Deus lhes diz que isto é que é.

O ISIS não tem nada a ver com religião, a religião é Deus e amor, punição e massacre é de gente doente mental que usa a religião e Deus para justificar a sua insanidade e em nome deles aterrorizar inocentes. Usar a religião é querer dividir o mundo ao meio, demarcando-nos do mal. O mal existe em todos nós e de nada adiantam bodes expiatórios. Há que focar no concreto, em meia dúzia de alucinados que já não se restringem geograficamente ao Iraque e à Síria e isto é perigosíssimo. Os alvos dispersos são sempre mais difíceis de detetar.

E uma forma de desmantelar o ISIS, que entretanto já tem uma espécie de território, é parar de o armar. Já vi boicotes económicos e outros por muito menos… Estados soberanos que continuam a financiar o ISIS e a armá-lo até aos dentes não são só hipócritas, são torpes e indiretamente responsáveis pelos massacres em Beirute, no Iraque, em Paris, na Síria e no Quénia.

Não venha solidarizar-se depois quem é direta ou indiretamente responsável pelo terror que se propaga a cada dia, no mundo inteiro. Porque estes tipos não querem paz, querem genocídio. E são medievais, não se põem armas na mão de selvagens, que, diz-se, querem o apocalipse e é isso que procuram quando desatam a disparar sobre inocentes. O ISIS abriu guerra contra o mundo, o mundo precisa de se unir por um bem maior, travar esta loucura coletiva.

You Might Also Like

  • manuel soares 16/11/2015 at 13:00

    muito bem! Isabel

  • error: Content is protected !!