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Nunca fui a um festival de Verão

28/06/2007

Quando era adolescente e via aquelas imagens de Woodstock ficava, confesso, um tanto ou quanto nostálgica sem ficar, porque afinal não tinha lá estado. Eram os cabelos compridos, as flores nos ditos, o aspecto feliz -, da moca, claro – que eles tinham, a música constantemente no ar, a calmaria, os olhos esgazeados do povo, as melhores bandas do mundo, a liberdade de toda aquela gente… Nunca fui a um festival de Verão. Gostava de ter ido a Woodstock, mas não era nascida e além disso as viagens deviam custar uma fortuna.

Quando voltou a moda dos festivais de Verão a Portugal já tinha idade para ter juízo. Aquando da presença do JK no Sudoeste, ou lá onde foi, estive tentada mas, num rasgo de lucidez, achei por bem ficar sossegadinha.

Uma pessoa chega a uma idade em que já lhe doem as cruzes de estar de pé, as pernas ficam fraquinhas mas o pior de tudo não é o físico. Nem a cabeça, que para isso deveria arranjar por lá um remédio que me curasse desse mal… Não, o pior é o espírito chulezento. Eu nunca tive espírito chulezento mas enquanto se é adolescente,que se lixe, queremos é sair debaixo das saias, e acima de tudo das vistas, das nossas mães e curtir uns copos e etc à vontade e não vai ser uma cama, ou a falta dela, que nos vai tirar o sono. Lá está, nessas alturas abundam remédios para esse mal. Mas os anos passam, ganha-se estatuto e eu ganhei muito depressa o estatuto de ter direito a cama com lençóis lavadinhos e casa de banho para o belo do duche.

É por isto que nunca fui a um festival de Verão e não tenho peninha nenhuma. É que ninguém me apanha no meio do mato, a partilhar as pedras e a caruma, numa tenda a cair – quem é que monta uma tenda em condições às tantas da manhã, quem? -, coladinha a milhentas outras tendas, com gajos a ressonar, a vomitar, a cantar, de viola em punho, o que me dá logo vontade de fugir a sete pés, um monte de atrasados mentais a gritar pela Elsa, tudo isto pela noite fora. Não a mim, porque acampei duas vezes e chegou-me. Aquele pó que se entranha na pele e só sai na base do banho de imersão de, no mínimo, uma hora. O sol às seis da manhã, a derreter-me os miolos já de si assaz desfeitos, porque os excessos pagam-se caro e bem cedinho, pela fresca, sem dó nem piedade, nem a mínima consideração pelo facto, de importância vital, de termos acabado de aterrar no colchão horrivelmente fino. E lavar os dentes? E por aí fora? Tomar banho numa barragem, EU???????

As pousadas estão cheias de gente, esgotadas até ao pátio, e no carro é que eu não durmo. E esta coisa das 300 bandas, todas enfiadas umas nas outras, pack leve 6 pague 3 não me convence. Du vi dê ó dó que alguém se lembre dos pormenores dos concertos com tanta gente a rodar os palcos. A certa altura já ninguém vê é nada e querem-me convencer que é bom. A nossa banda, aquela que queremos ver – e por isso pagamos uma fortuna porque acreditamos que aguentamos levar com as outras bandas todas – toca uma hora e é um pau e os papalvos ali ficam, a gramar com os gajos do heavy metal, os grunge, os dreads e demais géneros musicais criados a martelo, para vender.

Durante três dias, com bezanas enfiadas umas nas outras, só assim é que se aguenta, a cheirar mal, a aturar bêbedos, ressacados, cenas de porrada, gajos com maus vinhos ou pior, daqueles que bebem uns copos e choram? Ou cantam…

Bardamerda para os festivais de Verão. Eu é mais concertos, e nas bancadas, que as pernas já me pesam.@2005

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