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Nunca tive um bebé careca

14/11/2012

Naquele texto de resposta da minha mãe sobre o pão por deus, houve duas coisas que fizeram soar um alarme na minha cabeça. A primeira é quando diz: A minha mãe nunca me deixava ir, porque achava que eu não devia ir pedir, e quando diz: É que injustamente, porque eu era «a menina». Perguntei-lhe o que queria dizer com aquilo, se era por ser a mais nova ou a mais gira. Respondeu-me que: Era a menina porque, no sítio onde vivia, tinha uma condição social diferente. As minhas amigas eram praticamente de pé descalço e eu era a menina do sr. professor. O meu avô, que não conheci, era professor primário.


Primeiro, soou-me mal aquele: achava que eu não devia ir pedir. Mas depois percebi, a minha avó não achava bem que a minha mãe, não precisando, fosse pedir. O que ela não entendeu é que aquela era uma necessidade da minha mãe de pertencer, o que é normal para a idade que tinha. Se todas as crianças iam fazer a brincadeira de pedir doces, ela também queria participar A minha avó simplesmente proibiu-a por achar que havia outras crianças que precisariam de aproveitar aquele momento para pedir e se a minha mãe recebesse, outras receberiam menos, ou não receberiam de todo. A minha avó poderia simplesmente explicar-lhe isso, deixá-la ir pedir e depois sugerir-lhe que dividisse com as amigas o produto do peditório. Mas não lhe ocorreu, enfim. Não me ocupou muito tempo, só depois, quando veio a explicação do porquê da “injustiça” é que me toquei.


É uma merda viver uma vida em que nos culpamos por termos um pai professor, quando a vizinhança trabalha na agricultura, por exemplo… É uma chatice sentirmos que a vida é injusta porque o nosso pai, que amamos, que é digno, respeitável, responsável e faz um excelente trabalho como professor, para além de ser bom pai, afinal não é agricultor, para podermos ser tão humildes quanto os outros, coitadinhos. É uma merda sentirmo-nos culpados por podermos ter estudado, ter tido uma boa educação, por sermos quem somos. É lastimável que se odeie, recrimine alguém por ser rico, querer coagi-lo a deixar de ser só porque o outro não o é. É doentio e neurótico, para além de estúpido, levar uma condição de vida pior só para não ofender quem tem problemas com isso, mostrando-lhe, ao mesmo tempo, que é só até aí que pode chegar, pois se o rico que é rico vive assim… E quando um rico ajuda – e rico é um conceito bem diferente de pessoa para pessoa, para alguns é apenas poder dispensar 200 euros para ajudar uma instituição qualquer – porque pode, quer, lhe apetece e dá descontos no IRS, cujo escalão está lá nas alturas porque trabalhou para isso, e cuja brutalidade de impostos que paga serve, inclusive e supostamente, para financiar instituições públicas, nomeadamente hospitais e escolas, é um filho da puta por causa da caridadezinha. Porque os pobrezinhos ajudam os ricos a serem pessoas melhores. Esses putos, é por causa deles que nós somos pobres e outras alarvidades do género que se lêem por aí. É lastimável que se olhe constantemente para a grama do vizinho, em vez de se cuidar da sua. É lastimável que se continue a confundir dignidade com poder de compra. 


Como sou bem nascida, também aprendi que a ostentação é delírio de novo rico, de mau gosto, quase uma falha de caráter. Daí que não seja coisa que pratique, a não ser naqueles dias em que me sinto um lixo e preciso de me convencer de que sou querida pelos meus, o que não tem nada a ver com a posse de bens materiais, muito menos com a sua ostentação, numa tentativa de compensar uma falta qualquer…


Ia devolver a culpa à influência judaico-cristã, mas depois lembrei-me dos gregos, que gostavam da justa medida, e do facto de alguém que saia da suposta justa medida ser punido. Talvez seja esta a razão.


Felizmente, não vivemos na Índia e aqui, no mundo ocidental, ninguém é condenado à nascença pela condição social em que nasceu, sendo isso e apenas isso, uma vida inteira.   


Pela parte que me toca, continuarei no já bem sucedido processo de não me sentir culpada nem coagida por ter feito boas escolhas, por ter a felicidade de ter uns pais como os meus, que também fizeram boas escolhas, mediante as condições que os seus pais lhes deram, que trabalharam a vida inteira e me deram, e dão, uma excelente condição de vida, que não se prende com mensalidades astronómicas muito menos com noções distorcidas de boa vida, mas sim com valores, valores a sério, daqueles que não se compram com meia dúzia de zeros numa conta bancária, muito menos nascem de uma conta com igual número de zeros…

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  • Espiral 14/11/2012 at 10:47

    Concordo. Acho óptimo falares desta temática porque é uma temática quase tabu.

    E porque é fácil cair nessa casca de banana. Eu muitas vezes senti-me injustiçada por não conseguir fazer o que a maioria dos meus amigos fazia (por acasos da vida ou afinidades várias sempre me dei maioriatariamente com pessoas) e lembro-me que era uma tentação faze-lso sentir mal por poderem e eu não.

    Hoje já vejo isso como mesquinho. Mas é complicado não é? (E estou a ser muito fútil porque nunca me faltou nada do essencial).

    • Isa 14/11/2012 at 17:01

      olha, é normal querer fazer o que os outros fazem, a necessidade de pertença é natural em nós, mas só se justifica até ao fim da adolescência. Depois disso revela problemas sérios de falta de identidade, pessoas cuja existência só se justifica através do grupo.

      a questão, parece-me, é basicamente esta e não se trata de miserabilismo, ah e tal contenta-te com o que tens. trata-se de auto-suficiência, de esforço individual. se achas que para ti é importante teres um iphone, trabalha para isso e compra-o. o facto de se insistir nisso uma vida inteira sem se questionar se de facto se é mais feliz porque se tem um iphone, e isto é só um exemplo, pq foi conotado como símbolo de status, é que me parece grave. porque a questão de fundo fica por resolver, que é: o pq dessa necessidade quase esquizofrénica de aparência, de status, o pq de não te aecitares a ti mesmo, nao te valorizares por seres quem és, não pelo que tens. conheci mto escroque riquíssimo e mto boa gente com menos posses. Aliás, os meus melhore amigos, as melhores pessoas que conheço, eram de uma condição social diferente da minha. e fizeram um bem enorme para a minha evolução individual.

      e há coisas que não consigo ultrapassar, com as quais me custa conviver, falta de boas maneiras, por exemplo, que tem pouco a ver com pose… e que existe em todos, todos os meios sociais… talvez nas classes mais baixas menos, o que é bem fácil de entender, as prioridades são outras, mas isso pouco me satisfaz no convívio diário, em relações mais profundas e mais íntimas, por exemplo…
      bjo

  • Ana 14/11/2012 at 13:54

    Nem imaginas o quanto me identifico e entendo este teu post. Passei por isso toda a minha adolescência, sim, porque é nessa fase que os outros mais nos apontam o dedo e as coisas nos incomodam mais. Nasci numa família de médicos. O meu bisavô, avô, o meu pai, os meus tios e, mais tarde, alguns primos, são (eram) todos dentistas. Sempre tive a sorte de poder ter uma vida boa. Não eram só as roupas caras que provocavam os olhares maldosos na escola – azar dos azares (e hoje sei que foi o melhor para mim) ter ido para um liceu público – não eram só os relógios da moda, a melhor mochila, as melhores botas. Era também o facto de poder ir sempre a todo o lado, àquela festa de anos, ao cinema, à discoteca, sem precisar contar os trocos. Era também o poder andar no ballet, na patinagem, na ginástica, nas aulas de piano e tudo o que me desse na cabeça fazer. Os outros olhavam, falavam, criticavam. Na cabeça iluminada daqueles adolescentes, o meu pai só podia ser um traficante de droga. O que eu me rio hoje em dia com tudo isto! Mas na altura não achava assim tanta piada. E cheguei ao ponto de deixar de usar e fazer certas coisas, de não querer mostrar o que podia ter para assim me sentir mais igual aos outros.

    Com a idade isso foi mudando, claro. Tomei consciência de que o erro não estava em mim ou na minha família, mas sim nos outros. Eu tinha de aceitar as diferenças e os outros também. Hoje em dia, é para o lado que durmo melhor. Faço a vida que posso fazer, pago as minhas contas com o meu trabalho, e não deixo de usufruir daquilo que gosto e posso, só porque os outros acham que é um exagero, e porque o país está em crise e etc.

  • Auto-colante 22/11/2012 at 15:17

    <3

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