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Vamos parar com isso de dizer que “artista não trabalha”

20/02/2014

Sabe quanto um autor ganha por música? Por livro? Sim, vende a mesma música e o mesmo livro, com sorte, zilhares de vezes. Você também ouve a mesma música zilhares de vezes e só paga uma, lê o mesmo livro zilhares de vezes, se quiser, e só paga uma, o mesmo filme, o mesmo quadro… E ainda distribui pelos amigos, empresta e tal, normal.

Só não se esqueça que o autor vive disso.

Ah, e tal, se não lhe chega, que faça outra coisa.

A grande maioria dos autores sofre de um grave problema, só sabe criar. Se o autor faz outra coisa, vai fazê-la mal, sem gosto, sem prazer, sem entusiasmo, fora que vai tirar o lugar a outro, que faria o mesmo trabalho com mais competência. Além disso, fazendo outra coisa, o autor não tem tempo para criar, nem cabeça, nem disponibilidade. O dia do autor tem as mesmas horas que o dia do comum mortal…

Sem criação o mundo não vive ou, enfim, torna-se num lugar muito chato. Sem criação o mundo morre, viramos todos máquinas, todos pensamos igual e não há ninguém que nos ajude a trocar a lente.

O conflito gera mudança, a mudança gera movimento, o movimento gera vida.

Na grande maioria das vezes é isso, sim, basta ao autor que você sinta prazer em lê-lo, em escutá-lo. O artista é artista porque não faz a coisa por dinheiro. Mas, lamentavelmente, esse é o trabalho do autor, do artista, e ele precisa de ser remunerado por isso. Fora que também tem de comer, de pagar contas, enfim, de viver… Pense num mundo sem música, sem livros, sem cinema… Impossível não é? Pense nisso…

Título original: O autor nunca morre*

*Quer dizer, morre, sim, como toda a gente. Mas a obra continua. A obra é a extensão do seu autor…

Este texto tem dois anos. Republico-o agora, acrescentando que há gente com responsabilidades editoriais que diz que os escritores, e passo a citar, “têm de trabalhar”. Gente que vive de rever textos dos outros, gente que, se não fossem os escritores, provavelmente não teria trabalho. A esquizofrenia chega a este ponto…

Como se escrever, ou criar o que quer que seja, caísse do céu. Como se não desse um trabalho imenso, já para não falar no que se consome para se poder criar, produzir. Você pode não ver, não saber o que está por trás de um livro, um disco, um filme. Mas esse trabalho existe e não é de somenos. Estamos apenas a falar de trabalho físico, não de trabalho emocional, que é o que norteia o trabalho artístico. Mostrar a alma, expor fantasmas, sentimentos, requer uma coragem que vai além dos limites racionais, fronteiras dificílimas de ultrapassar. Como diz Matisse aí em cima, criar implica uma coragem emocional imensa, mais ou menos como amar. Quero ver alguém aí desvalorizar o amor, o sentimento. Quero ver alguém viver sem eles.

Vamos parar com isso de dizer que “artista não trabalha”, por favor.

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  • a mulher certa 28/01/2012 at 10:57

    Adorei este texto. :)

  • Isa 28/01/2012 at 13:32

    :)

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