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O crime não compensa

25/02/2014

No livro de contos do Maugham que comecei a ler ontem, o polícia que tomou conta da Crime-Keyboard-Darkocorrência, um assassinato de uma pessoa muy querida pela comunidade, descobre que o assassino era um senhor que morava com a vítima do crime há um ano, de favor, e que o crime foi arquitetado por ambos, o senhor com cara de quem não parte um prato e a mulher. Dizia que não ia fazer nada por não haver provas e tal e, ao contar a história, acreditava que o assassino nunca teria problemas de consciência, apenas e só porque não foi apanhado. O polícia sabia que o senhorzinho não representava perigo para a comunidade, que tinha sido um caso isolado e que “o que importa não é o que os homens fazem, mas o que são”.

Lembrei-me da história do crime e castigo, em que o Ra – vamos chamá-lo assim, dá-me imenso trabalho ir procurar ao google como é que se escreve o nome dele e isso corta-me o raciocínio – é consumido por uma crise de consciência e não para de pensar sobre o assunto, com pesadelos e tudo, acometido de vontade de dividir o crime com alguém, de o confessar, para ver se a tormenta alivia um pouco.

Também me lembrei da história do Match Point, que se assemelha muito ao Crime e Castigo, com a diferença que o mocinho parece não ter problema algum em ter matado não só Nola, como uma velha inocente. Neste caso, o personagem podia bem ser um psicopata. Só um psicopata não tem crises de consciência.

Dividir o “crime” com alguém ajuda a aplacar crises de consciência, já que é como se a responsabilidade ficasse dividida, eu cometi o crime, mas tu sabes e calas, ou seja: és quase cúmplice. Se algum dos dois quiser denunciar o crime, o outro pode levá-lo a não o fazer.

Fiz uma coisa com a qual não me sinto muito bem, por isso a divido, para que alguém me aprove, me ajude a viver com isso…

Talvez haja menos consequências se o criminoso não for descoberto, não é julgado pela sociedade e, por isso, não é levado a pensar nas consequências das suas ações. Se não houver consequências, acreditamos que podemos tudo. No entanto, isso é um delírio momentâneo.

Silenciar, nunca mais pensar nisso, esquecer, não resolve. Mais tarde ou mais cedo, a coisa salta da gaveta e vem atormentar-nos os dias e as noites. Caso isso não aconteça, o que duvido, nós encarregamo-nos de nos entregar. De alguma forma, boicotamo-nos para nos punirmos pelo que fizemos. Acabando a crueldade do crime cometido por reverter contra nós, afinal, os únicos responsáveis pela ação. A tortura psicológica a que nos votamos é punição suficiente.

E quem diz crime, diz qualquer outra ação que tenhamos protagonizado e que tenha prejudicado diretamente alguém. Dividir responsabilidades pode até parecer uma boa ideia, mas da participação direta não nos safamos.

A única saída é o perdão…

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  • Mariam 26/02/2014 at 09:48

    Já que estás com o Maugham, lê aquele outro conto, “A indomável”. Vais ficar pregada ao chão. E os outros todos valem a pena. Agora também não me lembro – e levantar-me daqui e ir à estante folhear o livro também me corta o raciocínio :) – do nome, mas há um outro, de uma atriz de teatro de subúrbio que casa com uma promessa de vida melhor, e que é tão dramático que nos arranca o coração pelas costas.

    A única saída é mas é a confissão, pelos vistos :) O perdão (dos outros) virá ou não. Com a confissão conseguimos, pelo menos, o nosso perdão, o que já não é nada mau.

    • Isa 26/02/2014 at 12:56

      O perdão nosso, sempre. o dos outros é lá com eles… :)
      Bjo

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