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O dilema da raiva: deixar sair ou travar?*

23/04/2013
O que faz quando está com raiva? Tende a remoer e a amuar, colecionando queixas justificadas como quem guarda bolotas pro Inverno? Ou explode, lançando a sua ira sobre tudo e todos que se ponham a jeito? Discute os seus sentimentos quando se acalma? Ao soltar a raiva livra-se dela ou fica tudo mais intenso?
As respostas são cruciais para a forma como você se relaciona com família, vizinhos, empregados e estranhos. Os pensadores natos conseguem aprender a pensar cuidadosamente no momento em que devem expressar raiva e tomar uma decisão calmamente sobre como proceder. As sensações crónicas de raiva podem ser emocionalmente tão devastadoras e doentias quanto os problemas relacionados com a depressão e a ansiedade. Em contraste com os conselhos da psicologia popular, pesquisas mostram que expressar raiva nem sempre faz com que ela saia do seu sistema; frequentemente, as pessoas sentem-se pior, física e mentalmente, após um confronto em que a raiva se instala. Quando as pessoas remoem e ruminam a raiva, falam sobre isso com os outros ou ventilam a sua hostilidade em atos hostis, a tensão arterial sobe e ficam ainda mais raivosas, comportando-se de forma mais agressiva depois do que se tivessem simplesmente deixado que esse sentimento acalmasse (Bushman et al., 2005; Tavris, 1989). Por outro lado, quando as pessoas aprendem a controlar o seu temperamento e a expressar a raiva de uma forma construtiva, sentem-se melhor, não pior, mais calmas, não mais zangadas.

Quando as pessoas se sentem zangadas, podem escolher entre várias coisas, algumas delas mais benéficas do que outras. Algumas ficam emburradas à espera que alguém lhe leia o pensamento, o que dificilmente se torna numa forma de comunicação clara. Muitas publicam comentários impulsivos em blogs que as chatearam ou enviam textos maliciosos no calor do momento. Algumas gritam de forma abusiva com amigos ou família, ou partem para a violência física. Se determinada ação lhes acalma a sensação ou se recebem a resposta pretendida dos outros, provavelmente farão disso um hábito. Rapidamente esse hábito se torna natural, como se nunca pudesse ser mudado. No entanto, alguns hábitos são melhores que outros! Cozer pão ou ir correr é bom, apesar de muita gente justificar os seus temperamentos, dizendo: não consigo controlar-me. Mas consegue. Se você desenvolveu um habito de abuso ou de agressão, pesquisas oferecem sugestões para aprender a lidar com a raiva de forma construtiva:


Não dispare no calor da raiva, deixe que a reação corporal baixe. Venha essa reação de stress causada pelo espaço onde está, seja por causa do calor, da multidão ou do barulho, ou resultante do conflito com outra pessoa, tire um tempo para relaxar. O tempo vai permitir-lhe perceber se você está mesmo zangado ou apenas cansado e tenso. Esta é a razão que está por detrás do velho conselho: conte até 10, conte até 100 ou durma sobre o assunto. outras estratégias para arrefecer o espírito incluem tirar um tempo no meio da discussão, meditando ou relaxando, e acalmando-se com uma atividade que o distraia.

Não leve para o lado pessoal. Se você se sentiu insultado, verifique a sua percepção sobre a exatidão desse insulto. Haverá outro motivo para o comportamento que considerou ofensivo? As pessoas que se enraivecem rapidamente tendem a interpretar as ações dos outros como ofensas pessoais. As que demoram para ficar com raiva tendem a dar aos outros o benefício da dúvida e não estão tão focadas no seu orgulho ferido. Empaatia (“Pobrezinho, sente-se pessimamente”) é normalmente incompatível com a raiva, pratique ver a situação da perspetiva do outro.

Atente na raiva na estrada, na sua e na dos outros. Conduzir aumenta o nível de reação de toda a gente, mas nem todos se tornam em condutores de cabeça quente. Alguns condutores cultivam a raiva através de pensamentos de vingança e retaliação em relação a outros condutores (que têm a lata de mudar de faixa ou de querer estacionar!). Os condutores de cabeça quente assumem mais riscos ao conduzir (mudando de faixa rapidamente, na sua impaciência) adotam comportamentos mais agressivos (dizendo palavrões, fazendo gestos obscenos aos outros ou insultando-os) e têm mais acidentes (Deffenbacher et al., 2003).

Se você decidir que expressar raiva se justifica, certifique-se de que usa a linguagem verbal e não verbal certa para se fazer entender. Culturas (e famílias) têm regras diferentes para se manifestarem, certifique-se de que quem vai levar com a sua raiva percebe o que você está sentindo e que queixa está a tentar fazer, e se o outro acha que a sua raiva se justifica. Por exemplo, um estudo comparou o uso da raiva entre negociadores americanos-asiáticos e americanos-anglófilos. Expressar raiva surtiu efeito nas equipas anglófilas, conseguiram mais concessões do outro lado, mas foi muito menos eficaz no caso dos negociadores asiáticos (Adam, Shirako, & Maddux, 2010).

Pense duas vezes na forma como expressa a sua raiva para obter os resultados que pretende. Onde quer chegar com ela? Quer apenas fazer o outro sentir-se mal ou que ele perceba as suas preocupações e faça concessões? Gritar: “seu atrasado mental, como podes ser tão estúpido!” pode levá-lo a conseguir atingir o primeiro objetivo, mas muito provavelmente não vai levar a outra pessoa a pedir desculpa, muito menos a mudar de comportamento. Se o seu objetivo é melhorar uma situação ruim ou alcançar a justiça, aprender a expressar a raiva é essencial para que o outro o oiça. 
Claro que se o seu objetivo é soltar os cachorros, força, mas arrisca-se a tornar-se num esquentadinho.

*Via (tradução minha)

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