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O estatuto foi pro brejo

09/08/2005

Pronto. Agora que já tomei banho de imersão, agora que consegui finalmente dormir – por falar nisso tenho verdadeira inveja, acho que é a única inveja que tenho, das pessoas que dormem em qualquer lado – agora que começo a acordar posso finalmente passar ao relato do meu primeiro Festival de Verão.

Agora que já me fustiguei 300 vezes por mais uma vez falar antes do tempo, fónix mas será que um gajo leva a vida inteira nisto, venha de lá esse relato, então.

Depois de me ter convencido de que pudesse ser que toda a vivência no Andanças valesse a pena e o dormir poucas horas no chão afinal não fosse tão importante, e por outros motivos que neste momento não interessam, lá fui. Eu, o meu mais recente reencontro e o baianito giro.

Amarfanhados num Honda Concerto, que trava com a caixa e não tem rádio, lá fomos então os cinco, A1, IP3 fora, direcção: S. Pedro do Sul. Uma viagem mais quente do que as temperaturas anunciavam por causa da MERDA dos incêndios e dos fdp por eles responsáveis, os responsáveis pela falta de meios incluídos, um cheiro a queimado permanentemente no ar, chamas num horizonte perto demais, mas animada com cada um na sua, ou cada dois nas suas e um a dormir, ou não fosse ele baiano, ou todos na mesma, unidos pela música.

Por motivos totalmente contrários à minha natureza, que nem sei que me deu, não me calava. Falava com a L. Acho que precisava ouvi-la tanto quanto ela a mim, independentemente de ter falado bem mais. Como digo, não sei que raio me deu.

Bom, o Andanças é a freakalhada concentrada numa vila minúscula durante uma semana. A sério, havia coisas que nem sabia que ainda existiam, tipo: indumentárias, hair do’s de higiene duvidosa, outros uma verdadeira demonstração de criatividade, freaks convictos, freaks por uma questão de atitude mas que não percebem muito bem aquela onda do até onde é que vai ser freak? Tipo, como é que eu hei-de ser para ser freak. Freaks fashion, crianças, adultos, bem adultos, que isto até aos 30 não se passa nada digo eu, velhos e estrangeiros de toda a espécie. Ao princípio pensei que estava a alucinar, do calor, bem entendido. Mas depois, esfreguei os olhos com muita força, dei-me um beliscão e acordei para a vidinha.

Eu dormi numa tenda
Bom, na primeira noite dormimos ao relento, quais adolescentes, porque a tenda que a L tinha trazido não passava do chão e das estacas. Acontece. Que lindo que é as estrelas mas esta pedra aqui debaixo das minhas costas já me está a chatear.

O pó começara a enfiar-se-me nos poros, todos, com uma concentração maior nos pés, que a primeira coisa que fiz foi substituir a sandalona dois andares por umas havaianas laranja – a condizer com a cor da unhaca do pé, o estatuto assim obriga – que nunca mais larguei.

Os chuveiros vieram directamente dos campos de concentração nazi, na Polónia. Um monte de chapa verde, abre-se uma porta e estão algumas dez mulheres e umas quantas miúdas, filhas, tudo a tomar banho. Aos judeus foi o que lhes disseram também, se não me falha a memória. Muito bem feitos, bem pensados, com cordinhas e tudo para o pessoal pendurar a roupinha, papéis por todo o lado a dizer para poupar água, o único problema era a água quente, que não era… Tive a sorte de tomar banho numa altura de transição. Em que os chuveiros estavam desocupados mas cheios de gente a vestir-se. A água saiu quente até quase ao fim.

Vi por lá muita gente a lavar a loiça, o detergente era biológico e de borla, havia sacos para o lixo, embalagens e vidro em separado, muitíssimo bem organizado e com 50 coisas sempre a acontecer, desde workshops palcos com danças, diferentes, aos montes e de todo o lado do mundo, concertos, massagens de tudo o que é espécie, índios da treta a cobrar 10 euros por uma leitura de mão, bancas de venda de tudo e mais alguma coisa, daquelas em que mulher que se preze gasta uma fortuna, comida, vegetariana, do melhorzinho que já comi… A vantagem do calor é que me tira a fome. Só comia qualquer coisa de jeito quando o sol se punha. E tinha de ser a saladinha, que era o que vinha a calhar. Mais concertos, mais música, mais comida vegetariana, mais pó, mais frio e tenda. Foi. Muito mal dormi numa tenda mas de facto isso foi o de menos.

O estatuto foi pro brejo por um fim-de-semana, é certo. Posso até ter pinta de bacana – na pele da qual me sinto MA RA VI LHO SA MENTE – mas senti-me afreakalhada por um ou dois dias. Os festivais de Verão, Deus me livre e ADOREI. A onda das pessoas não podia ser melhor, não houve desatinos, estava tudo muito na sua e quem tinha de se encontrar encontrava-se, sem que fossem precisos telemóveis.

Muito lindo, muito lindo mas não me apanham noutra tão cedo!

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