Uncategorized

O inferno são os outros*

15/11/2012

Quando venho de um fim-de-semana na praia, fico sempre um dia ou dois meio assim. Na vida civil, não tenho horas para nada, sou o mais livre que consigo ser, sem rotinas quase nenhumas, os meus dias nunca são iguais. Gosto disso, as rotinas e as regras cansam-me e aprisionam-me, sinto-me encurralada, satisfazendo necessidades que não são minhas. A praia tem a grande vantagem de não ter tanto betão, de se ouvir o mar, de as obrigações da vida civil ficarem em suspenso. O tempo é outro, Kairos. Prefiro-o, mil vezes. O que me chateia quando volto é ter de encarar a realidade, Cronus, implacável. A vida civil na cidade que escolhi para viver obriga-me a enfrentar doses maciças de realidade, a vida não vivida, os outros, as chatices dos outros, a vida dos outros. Sinto que a minha vida é aqui, por mais uns tempos, não saberei dizer quanto mais exatamente, mas é aqui, apesar da falta que o mar me faz, apesar de me apetecer sempre ficar perto dele, apesar de me conhecer e de saber que talvez não aguentasse viver uma vida de sobrevivência, apenas. É justo que contribua, que desempenhe o meu papel, que viva em equilíbrio, sem ter de escolher entre Apólo e Dionísio, excluindo um deles, por ambos me fazerem falta, fazerem parte de mim, precisarem de ser realizados. O que me chateia quando venho da praia são as horas que passo a saber dos outros, o excesso de informação, a minha falta de auto-controlo, de largar tudo e ir fazer qualquer coisa de útil. Tudo me chateia, até o twitter. O que me chateia é ceder à pressão, que nem sei de onde vem, ou de não ceder, ou de ceder ao ócio, ao externo, para compensar uma falta interna que ainda não descobri qual é, em demasia. Tudo em demasia. É o facto de ter de me encarar de novo, ter de pensar na minha vidinha, o que me chateia é que, através dos outros, me vejo obrigada a participar ativamente na vida civil da comunidade. Por mim, escreveria, estudaria, leria, viajaria. Quando a alma me atormentasse, caminharia na praia e daria mergulhos revigorantes no mar, é indescritível como me lava a alma. Satisfazia assim a necessidade de ser útil, não gosto de ser pária, nem páreas… Ajudaria outras pessoas a serem úteis, pagar-lhes-ia para resolverem toda a minha vida civil e burocrática, o trabalho intelectual e criativo ficaria por minha conta, de resto, delego tudo, mas isso bem feitinho, não me venham trazer problemas. O que me chateia, mesmo, mesmo, é saber exatamente como quero viver e não saber quando isso acontecerá. 
*Título roubado ao Sartre

You Might Also Like

  • Flor 15/11/2012 at 21:27

    Gostei muito. Acho que muitos/as se identificam com o teu texto, contigo. :)

    *

  • Isa 16/11/2012 at 17:50

    :) :*

  • error: Content is protected !!