Uncategorized

O preço do progresso

14/08/2012
Outro dia alguém estava muito chocado com o facto de no Rio de Janeiro haver ascensoristas. Pessoas cujo trabalho é carregar em botões de elevadores. Que isso não era um emprego digno. A miúda do cd, que acha péssima ideia, onde é que já se viu, a emel vender um CD, mas acha a coisa mais natural do mundo que ela própria o faça, estava muito nervosa hoje na loja do cidadão porque o moço, que devia estar a atendê-la, estava a arranjar a impressora. Esquecendo-se de que provavelmente o mesmo moço iria precisar da impressora a funcionar quando chegasse a vez dela de ser atendida. Há funcionários a mais no Estado, toda a gente se queixa do mesmo, mas não há um gajo para arranjar uma impressora. É o preço do progresso. As pessoas não são contratadas para fazer um trabalho para o qual têm capacidades, são contratadas para fazer o que for preciso. E cai o carmo e a trindade a cada vez que alguém diz: esse não é o meu trabalho. Parece arrogância, parece horrível, como é possível que a pessoa seja tão limitada. Não é uma questão de limites, é que enquanto faço o trabalho de outro mais competente do que eu no assunto, não só não faço o meu, como perco um tempo infinito a resolver um problema cuja alçada pertence, ou deveria pertencer, a outro e que o resolveria em três minutos. Acontece o mesmo com a substituição dos homens pelas as máquinas. Elas fazem o trabalho de um homem, mas precisam dele a cada vez que lhes dá um faniquito. Da próxima vez que se orgulharem da vossa polivalência, é lembrarem-se disso. O desemprego também se combate assim: cada um no seu quadrado e não há lugar a qualquer tipo de frescura aqui. Digno? Digno deve ser não trabalhar, receber salários abaixo das suas competências, fazer tudo menos o que fomos contratados para fazer, tapar buracos,viver de RSI, é isso? Viver de status não enche barriga… Nem a nossa nem a do desgraçado que ficou sem trabalhar porque nós somos super heróis e até arranjamos impressoras. 

Na festa de encerramento dos jogos olímpicos, o neguinho que apareceu a varrer o chão, a sambar e a tentar driblar o segurança é mesmo um gari, um lixeiro, que é conhecido por limpar o chão e dançar ao mesmo tempo, durante os desfiles na Sapucaí, o sambódromo do Rio, alegre e feliz. Já que é o meu trabalho, então que o faça com disposição, porque a alternativa é fazê-lo à mesma, só que puto. Chegou a levar bronca do chefe, mas os aplausos do público incentivaram-no a continuar. Ficou famoso por isso, por ser alegre no trabalho, tem entrada na wikipedia e já conta com várias histórias no cv, inclusive: a passagem de testemunho dos jogos. Uma coisa linda de deus, o Renato Sorriso, nome pelo qual é conhecido.

Foto, com o gentil patrocínio do Tiago.

You Might Also Like

  • Tiago Koyano 14/08/2012 at 16:43

    O Renato é figura emblemática. E fazer o que se tem que fazer com alegria melhora demais as obrigações…
    Já leu esse?
    http://carnaval2009.ig.com.br/2009/noticias/riodejaneiro/2009/02/12/a+filosofia+do+gari+renato+sorriso+4029956.html

    • Isa 14/08/2012 at 16:45

      Nossa, Tiago, muda tudo, mesmo. e inclusive o tempo passa mais rápido, corre melhor, é impressionante. vou ler. e já roubei a foto :)

    error: Content is protected !!