O simbolismo de todas as coisas

21/08/2016

Gosto da ideia de dar um prazo de validade à neurose, à projeção, para ser mais exata.

Um dia destes, lamentava ter de me despedir da canga, aqui chama-se páreo, escreve-se assim mas diz-se paréo, vai saber de onde vem tal nome, que tinha trazido da Amazónia, por ter um rasgão no meio e já não me ser de grande serventia. Para os incautos, é apenas um bocado de pano, não para mim. Além de ser diferente dos demais, é amazonense. Pode ter sido feito noutro lugar, se calhar foi, por um baiano ou um gaúcho, mas foi na Amazónia que o comprei. Não acontece com tudo, apenas com algumas coisas de que gosto mais. E na grande maioria das vezes, tem pouco a ver com a materialidade da coisa, e mais com o que a mesma representa, simboliza.

amazonia

Cada coisa tem atrelada a si o símbolo de quem somos no momento, o que projetamos no objeto e assumimos para nós.

Às vezes, acontece achar uma boa ideia comprar isto ou aquilo e depois nunca usar e me perguntar o que raio tinha na cabeça quando comprei. Talvez tenha visto noutra pessoa, achado que lhe ficava bem, o objeto representar um ideal qualquer, ou apenas uma projeção, ver naquele objeto, naquela pessoa, o símbolo, ou a afirmação, de qualquer coisa que tenho em mim e ainda não sei, e adquirir, no impulso. Ou por simbolizar uma parte de quem já fui e agora não preciso mais de ser, ou de a expressar publicamente. E nem me ter apercebido de que não me identifico mais com aquele tipo de coisa.

Na grande maioria das vezes, descarto com facilidade, outras não. Quando acontece, já as coisas estão a desfazer-se e eu insisto em permanecer agarrada a elas, como se temesse perder o símbolo em mim que aquele objeto representa. Como se o que fosse nosso alguma vez nos pudesse fugir, como se pudéssemos algum dia escapar do que é nosso. É como se os objetos ditassem que está na hora de pararmos de nos agarrar a tal símbolo, conquista, como se não fosse nosso e concentrássemos toda a nossa força para com ele permanecer. Por já se ter firmado na consciência e de lá não voltar a sair, por já não ser preciso, por estar devidamente integrado, por novos desafios psíquicos estarem à nossa espera ao virar da esquina.

Dou dois anos para resolver a maioria das coisas da cabeça. Para conhecer profundamente alguém, pelo menos até à parte em que dá para decidir ficar ou partir. Para libertar, deixar ir, ou agarrar, com convicção, não como quem depende.

Dois anos depois de ter chegado do Brasil, a minha canga da Amazónia rasga-se, abandono um biquíni inteiro e uma parte de baixo, um vestido que adorava e me fez muito feliz e umas havaianas de médio salto que quase nunca usei, em Cabo Verde. Os biquínis porque estavam velhos, o vestido por não me servir e as havaianas porque me apeteceu deixá-las para alguém que lhes dê mais uso, estavam quase novas.

O simbolismo de cada coisa guardo para mim, a neurose e a projeção que representam idem, fico apenas com a curiosidade em relação ao que virá depois. Também isso é novidade, na grande maioria do tempo, tenho é cagaço em relação a quem virá para o leme da consciência. Não agora, não mais, não desta vez, pelo menos. O que quer dizer que me sinto suficientemente segura para aguentar o que vier e, em princípio, que a neurose de controlo faz cada vez mais parte de outros tempos. Não sei se será a maior, mas é certamente uma das mais saudáveis conquistas.

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