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O tempo passa

18/04/2014

E não dizemos nada, com tanto que há para dizer, o tempo passa, e insistimos em nada fazer. E quanto mais o tempo passa, mais tudo passa, menos o que temos para dizer, o quTime_goes_by_by_Demonflamee não dá pra fingir que não aconteceu, seja lá o que for que tiver acontecido. Nem sei bem o que aconteceu, sei que o tempo passou, que as emoções acalmaram, que a clareza não chegou, porque enquanto não falarmos o que tivermos para falar, façamos o que for para disfarçar, o pensamento gira em círculos sem que consigamos sair do mesmo lugar. Não é uma obsessão, é uma trava mental, um recurso da mente que sabe melhor do que tu e eu que ou se fala o que há para falar ou nos comprometemos para sempre. O que há para falar, seja lá o que for, confesso que não sei bem o que é, não desaparece, não se esfuma no ar, não vai embora, fica guardado numa gaveta até o móvel cair, a gaveta se abrir e tudo saltar cá para fora, sabe deus como, sabe deus quando.

O tempo passa e quanto mais o tempo passa, mais a vontade se perde, adormece o querer, o sentido se esvai, o que nos entusiasmava perde a força, restando apenas um ah, não… O tempo passa, o tempo passa e nós já vivemos o suficiente para sabermos que não deixamos para lá, não, nem para cá. Não depende da nossa vontade, da nossa memória, não é controlável, não é descartável. Fica lá, fica lá… O tempo passa, mas o que ficou por falar fica no ar, como uma nuvem, que se torna cada vez mais preta, à medida que o tempo passa, e não há meio de chover. Não chove nunca, o céu não é mais azul, é daquela cor indefinida, que não é nada, que só pesa, só pesa, como todos os assuntos proibidos. Também já sabemos o que acontece com os assuntos proibidos. Tornam-se numa caravana de índio, tapada com lona, enorme, com um buraquinho no topo, para que o que há para falar possa respirar. Lá dentro é escuro, não se vê nada, temos de abrir a lona para poder ver a carga, tirá-la cá para fora, limpar-lhe o pó, deitar fora os cestos cujo vime entrelaçado se perdeu, tornando-os inúteis, arrastar os baús, olhar lá para dentro, ver que lençóis foram comidos pela traça e pelo mofo, reparar que o linho se mantém intacto, talvez um pouco amarelecido, nada que um dia ao sol não cure. 

O tempo passa, a caravana de índio permanece fechada e nós permanecemos lado a lado, tu chicoteias os cavalos, eu olho a paisagem e deixo que o meu corpo se embale com o trotar dos bichos, não oferecendo resistência. Pode ser que um raio de sol nos ilumine, que os cavalos empinem e nos façam quebrar o silêncio que nenhum de nós sabe como romper.

Pode ser que descubramos então o que aconteceu… E, enquanto isso, o tempo passa e passa e passa…

@20 Dez. 2013

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  • martinho santana 20/12/2013 at 17:12

    Faz doer!

  • martinho santana 20/12/2013 at 17:13

    Faz Doer !!!

  • Isa 21/12/2013 at 02:44

    faz… faz sim, na alma… :)

  • Bocagiano 19/04/2014 at 04:52

    Podemos abrir a gaveta apenas para o “eu” e sentir o que não dizemos para aquela pessoa. Aprender a conviver com o conteúdo da gaveta. :) è estranho, mas possível…

  • Isa 20/04/2014 at 22:38

    Com certeza, aliás, é basicamente a única forma de vida possível, conhecer o conteúdo da gaveta ;)

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