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O Tradutor, esse bicho.

06/09/2010
Quem é o tradutor? Ninguém sabe, ninguém viu. É aquele que se esconde atrás das palavras dos grandes autores, que leva esses grandes autores até si, caro leitor. É um bicho solitário, que passa horas e horas no seu cafofo, com os olhos vidrados na tela, envolto em dicionários, manuais e o São Google, e chateia meio mundo com perguntas técnicas. É esse bicho aí. Ninguém sabe quem é, por isso é fácil culpá-lo. Culpá-lo por todos os males do mundo, dos livros, da TV e do cinema. Esse bicho…
Tradutor não é reconhecido. Nunca. Só pra dizer mal, aí o tradutor é lembrado. Pô, viu que bosta de tradução pra esse título? Já me fartei de pregar pela blogosfera e pela vida fora: quem decide os títulos dos filmes são as Distribuidoras…
Tradutor também não é lembrado na hora dos direitos de autor. Que seria dos russos se não fossem os tradutores? Dos gregos? Da Bíblia? Quantas e quantas vezes é reeditada uma tradução, e o tradutor só recebe a primeira? E mal… No mínimo sermos incluídos na categoria Direitos de Autor do IRS, para nos livrarmos do IVA. Ao menos isso…
E pior, toda a gente, toda, opina sobre o trabalho do pobre bicho sofrido e solitário. Toda a gente faz melhor. A pessoa estuda 4 anos disto, trabalha 15 e não sabe nada, mas o povo acha que faz como quem faz sudoku, enquanto vê a novela.
Você não paga médico? Advogado? Dentista? Mecânico? Electricista? Encanador? Então, um tradutor é um especialista em pôr coisas de uma língua para a outra, de forma a que façam o mesmo sentido, em ambas as línguas. Se for bom, como o Graça Moura [nem sei se é tradutor oficialmente, a ele chega-lhe a veia de escritor, a inteligência e a humildade. São os únicos a quem é permitido traduzir, aos escritores], você não dá por ele. Ou como os Guerra, que traduzem Dostoiévski em Portugal.
É para isto que um gajo estuda, é pago, sofre e não dorme. A cada palavrinha, cada insónia. Horas a pensar na dita, dias a pensar no tema, meses, quando se trata de um livro. E mal pago. Tudo isto é muito mal pago. Muito por culpa de muito picareta que anda aí a gritar que é tradutor. São esses que devem ser insultados, mas não chamados de tradutor. Isso não é uma ofensa, é um elogio.
Você prefere que seja a enfermeira a diagnosticá-lo, passar receita e tal? Na hora do julgamento, prefere a secretária do seu advogado ao seu lado? Ou é melhor ser o advogado mesmo? Então…
Um tradutor não é “uma pessoa que sabe inglês”. Tal como um advogado não é um estudante de Direito. Muito menos uma tradução é passatempo que se faz no intervalo do House. Não temos fins-de-semana, feriados nem dias santos. Lidamos com prazos, de satã, prazos de satã… E estamos na mão de pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a falar. São os piores…
Você substitui a terapia pela mesa do bar? Você se auto-medica? Então sim, você faz traduções, sem saber muito bem da poda, mas faz. Quando quer mudar a correia de transmissão, faz você mesmo? Quando quer ver de uma coisa mais séria, não vai ao hospital? Quando recebe uma notificação do tribunal, não fala com um advogado? Quando tem uma crise, não sabe o que fazer, não corre pro terapeuta? O tal cara especializado que estudou e estuda a vida inteira pra isso? Então…
Sabe aquela palavrinha que você fala: não tem tradução? Tem sim, o tradutor é o gajo que a vai encontrar por si. E é aqui que os escritores levam vantagem. Eles conhecem melhor as subtilezas das palavras do que nós, os bichos. Cintilante é diferente de brilhante, que é diferente de luzidio, que é diferente de bruxuleante. E o que brilha nos Estados Unidos, aqui cintila e em França luz. Brita é cascalho ou seixo conforme falamos com um engenheiro, com os amigos ou escrevemos um livro. Uma dor de cabeça é diferente de uma cefaleia. O tradutor também é o gajo que sabe (se descabela e não dorme, por causa) disso.
Você bufa quando paga mecânico? Dentista? Advogado? Bufa, claro. Mas paga! Porque é que tradutor é pago pelo preço que o cliente define, e não o contrário, como todos os especialistas?
Você pede desconto na terapia? Então…
Que se lixe a língua, a gramática, o contexto, a sintaxe, as regras. As regras… Vai assim, fica mais bonito… Você fala pra médico, advogado, mecânico, dentista, faça de qualquer maneira que tá bom? Pede pra trocar um remédio por outro? Um parafuso por uma porca? Então…
E o povo que acha que tradutor é dicionário? Então, o médico é a radiografia? O ultra-som? [Escreve-se com hífen? O tradutor ainda é o gajo que se preocupa com estas merdas…] O Estetoscópio? Os exames??? Os advogados são os códigos? Os mecânicos são o diagnóstico do seu carro que aparece na tela do computador e que diz que aos 50.000KM tem de se fazer tal e tal, independentemente de o carro ter estado parado 10 anos? O mecânico são as peças?
O tradutor também não é dicionário. Nem programa de computador. É esse gajo que traduz, rescreve, esclarece e adapta, tudo ao mesmo tempo.
O Tradutor é esse bicho, que, desejavelmente, não existe. Mas existe. Está aqui, por trás da tela do computador e com o Priberam aberto. O tradutor existe, é um profissional, exige respeito, reconhecimento e tem sentimentos…

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  • fal 06/09/2010 at 15:23

    rá.

  • Gi 06/09/2010 at 17:13

    Excelente texto e grande desabafo. Bj.

  • Isa 06/09/2010 at 17:28

    ;)
    Não há respeito, Gi :D
    Bjo

  • Anonymous 06/09/2010 at 17:57

    Liiiiiiiiiindo!
    Bjs, brasuca!
    Carla

  • Isa 06/09/2010 at 19:47

    ahahahaha, tá bem abrasileirado, este :D principalmente os então… mas juro que gajo ainda é português de Portugal :)
    Bjooo

  • ana natal 13/09/2010 at 10:47

    essa é que é essa!!! :)

    bjs

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