Olhos de campeã

15/07/2016

O que vi foi sangue a correr nas veias, paixão no coração, frieza na cabeça e um pouco de fé. Foi raça, liderança e união. Foco, concentração, determinação, consciência, tenacidade e sapiência. Foi uma vontade férrea de mostrar quem somos.

O que vi foi o orgulho de uma nação. Vontade de vencer, paixão, rendição e entrega a um poder maior. Foi um herói e a fé de um homem, talvez dois. Foram verdadeiros líderes a confiar numa equipa e a motivá-la, sabendo que cada um tem o seu papel e que sozinhos nada conseguem. E um coletivo que não desistiu e se bateu até ao fim.

O que vi foi que o espírito de sacrifício faz parte e compensa e que o cultuar do sofrimento não. Foi mais dedicação ao treino e à definição de uma estratégia do que a responder a críticas. Foi uma liderança inteligente e foco no objetivo, e não no ego, no complexo. Foi um coletivo a concentrar-se no que tinha a fazer, em vez de se defender dos seus próprios fantasmas, verbalizados por outrem e neles projetados. Que não teve medo deles, que não se deixou intimidar pela crítica, a manipulação, o deita abaixo.

Um coletivo sem desculpas e com vontade, que se recusou a aceitar o estigma da eterna vítima, a vergar. Que sabe reconhecer o seu líder e nem que fosse por ele havia de conquistar o objetivo que era de todos.

O que vi foi a humildade do melhor jogador de futebol do mundo a deixar para quem sabe a função de orientar uma equipa, calando-se e remetendo-se ao seu lugar, para deixar falar o seu treinador.

O que vi foi um miúdo da Musgueira a ser campeão europeu. Também vi o miúdo que – um dia, no lar de acolhimento em que vivia, disse: eu ainda vou jogar com o CR7 – para além de jogar com o seu ídolo, ainda marcou o golo que deu a taça de campeões europeus a Portugal, a quem o seu ídolo havia confiado tamanha empreitada. Foi um guineense naturalizado português ser o herói nacional depois de ser humilhado pelos seus compatriotas, dedicando-lhes o golo e o título, dizendo: estão desculpados. O que vi foi uma lição gigantesca de humildade, de compaixão, de humanidade e uma demonstração do que é saber viver.

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O que vi foi justiça poética, na queda do herói, na traça no olho, nas suas lágrimas, primeiro de dor, depois de comoção, na humildade dos nossos rapazes, no coxear do Cris pelas escadas acima, naquele levantar de taça.

O que vi foi que se fizermos a nossa parte, com vontade de querer, querer mesmo, do fundo da alma, e tivermos um pouco de fé, aceitando que não depende só de nós, mas que o que está ao nosso alcance é feito, somos capazes de atingir o nosso objetivo, que também é coletivo no sentido em que o partilhamos com a comunidade.

O que eu sei é que gente que escolheu ser infeliz há de sempre arranjar maneira de o ser. Que esta fórmula serve para todas as escolhas, conscientes ou não, que fazemos. E que não há nada que possamos fazer para alterar, a não ser fazer novas escolhas.

O que vi é que é possível ser campeão com doçura e algumas lágrimas nos olhos. E que isso não é lamechice nem sentimentalismo barato, é ser humano, é ser português, é ser possível. É bonito, é nosso e é a última coisa de que nos devemos envergonhar.

O que eu sei é que a vida é como a vemos e eu prefiro, sempre que conseguir, vê-la com olhos de campeã.

ederzito

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