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Orient Express

02/05/2013

Há uma metáfora de que gosto muito. Imagina que tens uma carruagem cheia de gente, gente que não te serve mais, gente tóxica, gente que só te quer arrastar pra esquizofrenia em que escolheu viver, gente que não faz nada, nada, durante anos, para mudar uma situação que não lhe é favorável, confortável, nada. Por isso mesmo, inferniza a vida dos outros, por ver neles alguma coisa que poderia ter feito e não fez. Mas, em nome de uma amizade de muito tempo, em nome de um sentimento, continuas a relacionar-te com eles, a tua carruagem está cheia e por isso mesmo acabas por não ter espaço na tua vida para te relacionares com outras pessoas, pessoas novas. Se abrires a porta da carruagem e começares a deixá-los sair, a esses que não te servem mais, abres espaço para que entrem outros. Ou seja, deixas de estar com esses e necessariamente outras pessoas vão aparecer na tua vida, porque começas a frequentar outros lugares, a fazer coisas que se adequam mais ao teu estado atual, tornando-se assim impossível que não conheças mais gente, que não apareçam pessoas novas na tua vida, que fiquem, que correspondam ao teu estado psicológico do momento. 
Leva tempo até tomarmos essa decisão, o medo do desconhecido, a zona de conforto, o não sabermos o que nos espera nem quem seremos depois do outro, mas não há como voltar atrás, embora queiramos eventualmente o melhor de dois mundos, que não é possível, porque um dos lados simplesmente escolheu um caminho diametralmente oposto ao nosso e eles nunca mais se vão cruzar, nunca mais. Leva tempo até nos conseguirmos desligar, até pararmos de querer os dois mundos, leva tempo até que o laço emocional se desfaça, até conseguirmos seguir em frente, leva tempo até que nos livremos da culpa, até que acertemos agulhas quanto à qualificação da nossa ação. Valores que defendemos entram em choque e é por isso que é tão difícil largar. E, claro, não podemos desconsiderar que existe uma outra pessoa na equação que vai querer, de certa forma, prender-nos. Mas a escolha já foi feita, a da construção, a de quem se quer resolver e decidiu que merece ser feliz e, por isso, não se pode permitir conviver nem envolver-se mais com alguém que a quer para outros fins, que não os mais nobres, a entre-ajuda, no sentido da construção. É nesse momento que constatamos que a única coisa a fazer é deixar pra trás o que pertence à neurose passada e seguir em frente. É nesse momento que as relações mudam na nossa vida. E isso é bom, é sinal de evolução da consciência. As relações que ficam são as de verdadeira amizade, de verdadeiro amor, as que não te prendem, as relações onde existe respeito pelo espaço individual do outro, pelo caminho que escolheu. As que te recebem de braços abertos quando voltas. São só essas vale a pena manter, é nessas pessoas que vale a pena continuar a confiar. Todas as outras são de conveniência, que, já se sabe, muda conforme o tempo é de sol, de chuva, de nevoeiro ou de neve, ou seja, são inconstantes, interesseiras, apenas. 

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  • Isadora S. 02/05/2013 at 16:32

    Eu precisava muito ter ler isto. Estou exatamente nesse expresso, com dificuldade de desembarcar pessoas nas estações…

    • Isa 02/05/2013 at 20:31

      não é fácil não, Isadora, é preciso muita coragem e muita força de vontade.
      Bjo e boa sorte

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