Livre

Os donos da dor

13/01/2016

Muito me irrita que quando alguém morre, venham os polícias da dor ensinar-me a fazer lutos e a lidar com a morte de alguém de quem gosto ou que admiro.

Normalmente fico triste, como fiquei quando morreu o Zé Wilker, a Marília Pêra, fico meio assim, como quando morreu a Amy Winehouse, o Michael Jackson, a Witney Huston, o Philip Seymour Hoffman, fez-me imensa impressão, porque me é difícil imaginar um mundo sem eles, mesmo que eu viva a minha vida independentemente do que eles fazem ou deixam de fazer. É uma posição egoísta, de quem quer apenas usufruir da genialidade alheia, mas é o que é e eu faço a minha parte. Vejo-lhes os filmes, compro-lhes os discos e os livros, para que possam continuar a produzir e a pôr comida na mesa.

O David Bowie foi o primeiro artista que morreu por quem me caiu uma lagriminha de desgosto, fiquei triste de verdade, sem conseguir fazer nada, quase paralisada. Escrevo que ele morreu, mas na verdade ainda não estou convencida. A todo o momento espero que ele venha das estrelas e fique aqui em baixo mais um bocadinho, a inspirar-nos com o seu exemplo, a sua discrição, a sua ousadia e a sua humanidade.

E não é porque ele é da minha família, mas caramba, acompanhou-me mais do que muitos amigos, fez-me mais feliz do que muita gente real, de carne e osso, foi dele um dos primeiros concertos que vi, hei de falar nisso, e a vida também é feita de gente que não conhecemos, mas que sente o mesmo que nós, com quem nos sentimos acompanhados simplesmente porque aquela coisa que sentimos e pensamos e não temos coragem de dizer alto porque ninguém vai entender e ainda nos vão olhar de lado, é dita por ele, a cantar, numa composição brilhante de letra e melodia, de atitude e de sentimento, de entrega absoluta e total ao que é seu, autêntico, de verdade, compreenda o mundo ou não, fazendo com que não nos sintamos tão sozinhos na nossa esquizofrenia. Ou que é capaz de nos fazer sair fora de nós e dançar e cantar às 5 da manhã de um dia de semana, num apartamento num 14º andar de São Paulo, sem nos preocuparmos com os vizinhos, num ato de libertação sem precedentes, ao som de Modern Love. E um gajo que é capaz de transmitir o que sentimos e nem sequer temos como começar a verbalizar, um gajo que com o poder da sua arte é capaz de nos fazer sair fora de nós para nos conectarmos com algo superior, algo mágico, algo sublime, algo absolutamente transcendente, merece todas as homenagens, todas as lagriminhas, todas as manifestações de amor que nós, na nossa pequenez, formos capazes de expressar.

Quem manda na minha dor sou eu, quem manda na minha saudade sou eu, na minha nostalgia, no meu sofrer, na minha incredulidade, na minha infinita capacidade de não entender coisas, de não as aceitar. Quem manda nas minhas limitações sou eu, os polícias da dor que sofram lá à sua maneira, mas não me venham dizer, muito menos tentar proibir, inibir, intimidar, como é que eu devo sofrer, lidar com a perda, arranjar maneira de viver num mundo onde o David Bowie já não existe.

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  • wapi 18/01/2016 at 12:25

    os teus posts por norma são sempre especiais mas este aqui tocou-me na alma. É nestas alturas que aparece sempre alguém a procurar acreditação, “não eras fã a sério, só viste agora porque ele morreu”, “toda a gente a falar agora do Bowie, mas quantos conheciam antes disto?”. Só posso sentir dor se tiver sido a mais ávida dos fãs? Cada um sabe de si, penso eu, e se uma pessoa fica triste por haver menos uma alma criativa no mundo está no seu direito. Incrível como até na morte há quem sinta que é preciso policiar o sentimento alheio.

    • Isa 18/01/2016 at 12:34

      é normalmente gente que tem dificuldade em lidar com os próprios sentimentos.

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