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Os gregos e o amor

19/11/2013

Não admira que andemos às turras por causa do amor. Há quem odeie o amor, quem venere o amor, quem não tenha paciência para o amor, quem ache tudo isso uma chatice. Há grandes discussões por causa do amor, por termos visões diferentes do que é o amor.

No entanto, o amor é só um, o sentimento mais sublime, o que mais nos preenche. Por oposição à falta de amor, à incapacidade de amar, que nos torna infelizes, amargos, rezingões, chatos, críticos e um bocadinho insuportáveis…

A questão é que nós vivemos o amor de formas diferentes, temos diferentes concepções do que é o amor, e as nossas são as únicas que são válidas, a todas as outras atribuímos nomes diferentes.

Os nossos amigos gregos definiram o amor de inúmeras formas, John Lee facilitou-nos um bocadinho a vida e resumiu-as a seis.

Cada um de nós tem uma tendência maior ou menor para cada uma delas, sendo que todos temos todas. Duas mais predominantes e uma terceira com alguma influência.

O problema não é a nossa tendência para uma em detrimento de outra, é a ausência de alguma delas e o excesso de outra. Para complicar um bocadinho, estas faces do amor não são estanques na nossa vida, quando somos mais novos podemos dar preferência a uma e, mais tarde, outra pode tornar-se mais prioritária. Complicando ainda mais, estas formas de amar opõem-se umas às outras, como podemos ver na imagem.

Agape: é o amor altruísta, a face do amor mais reconhecida pelas religiões, em detrimento de todas as outras. É um amor pouco carnal, com uma dose de doação muito elevada, ajudar o outro é uma manifestação de amor, que nos preenche de forma absoluta. Amar o outro, basta-nos. Não tem conotação erótica nem sexual. É o amor das causas, compassivo e humanitário. É, muitas vezes, o amor dos pais pelos filhos, o amor que não espera retorno. O excesso de Agape pode levar alguém a anular-se em prol do outro. Na falta de amor Agape, a empatia também se encontra ausente, é quando nos agredimos.

Eros: em oposição a Agape está Eros. É o amor sensual, carnal, o amor para obtenção do prazer, da satisfação. O que nos leva a querer fundir-nos no outro, o que se materializa na atração física, no amor à primeira vista. Eros é o que é gostoso. É sensorial. Manifesta-se muitas vezes no amor proibido.

Philia: é o amor-amizade, cuja base é a partilha, a compreensão, o pensar, é o amor das trocas intelectuais. É, como dizia Aristóteles, bom, prazeroso e útil. É o amor companheiro, o que diz a verdade, típico do amor entre amigos, e o preferido dos gregos. O excesso de philia pode levar à total ausência de interesse sexual e à falta de erotismo.

Pragma: é, como a palavra indica, pragmático. É o amor conveniente, o que acontece quando o relacionamento se baseia em interesses económicos, a junção de duas famílias poderosas, ou noutro tipo de conveniência, como segurança, estabilidade, classe social ou etnia. É o amor na sua forma mais prática, o que nos faz ficar num relacionamento por causa dos filhos, por exemplo. Se ele é dominante sobre todas as outras faces, a ausência de prazer prevalece, fazemos o que é certo, o que nos faz acreditar que esse tal de amor, afinal, é um tédio.

Pathos: é o amor paixão. A palavra paixão quer dizer sofrimento, e patos é a origem da palavra patologia. Depende do externo, que define e decide o nosso amor. Passa por cima de tudo, inclusive dos defeitos do outro, não mede consequências. Alterna frequentemente entre a paixão desenfreada e a raiva. Gera discussões homéricas, se não for balanceado por outro tipo de amor. A falta de pathos, vida sem graça, é tão ruim quanto o excesso.

Ludos: é o amor jogador, gosta de envolver e de seduzir, sem necessariamente querer concretizar. Gosta de competir e é muitas vezes manipulador. Os viciados no amor-ludos perdem o interesse quando tomam o outro por garantido. Quando este tipo de amor domina demais, torna-se numa compulsão e a pessoa só joga. Ludos é o que é bonito e opõe-se a philia. Ludos sem philia roça a perversão.

Se pensarmos um bocadinho, constatamos afinal que não são os opostos que se atraem, quer dizer, até são, mas não é garantia de relacionamento de sucesso. Ao contrário, se tivermos conceções semelhantes de amor, se o objeto do nosso amor o vê mais ou menos da mesma forma que nós, a frustração e o desentendimento não serão tão grandes.

*Set. 13

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