Livre

Quem não lê, faz o quê? II

08/06/2016

Não consigo descrever a sensação de ter um livro novo para ler, por abrir, o cheiro característico do papel puro, ainda livre do manuseio, a capa intocada, a leitura do primeiro parágrafo, a antecipação de horas e horas de prazer, verdadeiro e puro prazer. Os olhos brilham-me, como no primeiro.

Sem superioridade moral de qualquer espécie, não percebo como é a vida de uma pessoa que não lê. Quem não lê faz o quê? Como se conhece verdadeiramente alguém que não tenha a casa cheia de livros? Os guilty pleasures, os anseios, as fantasias, os segredos melhor guardados, as aspirações, os devaneios, as esperanças? Como se divide a vida com alguém que não lê? Quem não lê vai roubar tempo de leitura a quem precisa de ler para sobreviver. Não me obriguem a escolher…

Casas onde não há livros, é a primeira coisa em que reparo, são casas que me são quase hostis… Salas onde há prateleiras e prateleiras, do teto ao chão, cheias de livros, deixam-me fascinada, sinto-me uma criança numa loja de doces. Não há tédio possível em casas cheias de livros. Com lombadas coloridas, diferentes tamanhos. Não gosto de livros decorativos, com as lombadas todas iguais, tendem a ser castanhos e feios de morte. Também não estou nem aí para capas duras, papel grosso, quero lá saber. Uma das minhas editoras preferidas é a Penguin, por dar mais importância ao texto do que ao papel onde o mesmo está impresso, ao livro ser acessível do que ao peso do mesmo. Gosto de pensar que existe além da esquizofrenia em que se tornou o mercado e a vida à volta dele, enquanto editora de oportunidade, que leva livros a toda a gente não descurando a qualidade e acima de tudo a profundidade. Também gosto de capas, que não me agridam, não insultem a minha inteligência, não me manipulem. Capas que me dêem uma pista sobre o conteúdo, me incitem, me despertem a curiosidade, me atraiam como íman. Capas essas que não podem ser melhores do que o texto, ainda privilegio as palavras às imagens, embora a estética destas me encante. E gosto de títulos, títulos impactantes, poéticos, criativos e ainda assim simples, que me deixem curiosa e satisfeita ao mesmo tempo.

Ler é como estar com um autor e ao mesmo tempo evitar a interação física, o pesadelo de qualquer introvertido. Os livros são os melhores amigos e os melhores companheiros dos introvertidos. Ler é identificação, mas também é conhecer novos mundos, maneiras diferentes de pensar. Ler é uma forma de obter respostas, encontrar soluções, ponderar alternativas, mudar perspetivas. Ler é descobrir um palco para expressar os nossos demónios, as nossas fantasias, os nossos desejos, os nossos temores. Ler é entrar no maravilhoso mundo da cabeça de outra pessoa e percorrer, de mãos dadas com ela, o que a atormenta, a encanta, a intriga, a comove e a move. Há poucas coisas mais fascinantes do que isto.

Já para não falar no que a leitura faz por um escritor, a forma como o inspira, não só a escrever melhor como a pensar, a desenvolver uma ideia, a abrir o canal para o seu próprio mundo, as suas próprias histórias. E o influencia. Ao escrever, noto uma diferença imensa na fluidez, na construção mais ou menos poética e nas palavras que me saem e que escolho, quando leio literatura e quando leio psicologia, ou livros mais técnicos. Noto que demoro para mudar de um registo para outro. Preciso de uma buffer zone entre um tipo de linguagem e outro, uma voz e outra, um personagem e outro, dos inúmeros que moram na minha cabeça.

A literatura faz isso comigo, tira-me da persona e põe-me em contacto com a minha voz mais autêntica, mais genuína, menos defensiva, mais vulnerável, mais completa, mais minha.

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