Livre

Os modernos chamam-lhe networking

26/05/2016

Não gosto particularmente do conceito, faz-me mais sentido que as coisas sejam naturais, não calculistas, muito menos calculadas, deixam-me insegura, a achar que tenho de corresponder, fico em modo persona, meio defendida. Tenho uma visão romântica da vida e das pessoas, talvez até demais, por isso prefiro mil vezes quando é natural, há uma afinidade envolvida, além do pure business, da eventual retribuição, percentagem, mas está valendo, desde que seja honesto, que as partes saibam ao que vão, sem manipulação…

Lembro-me de falar sobre isso com a Catarina Matos, quando nos conhecemos ao vivo e a cores em São Paulo, ela estava impressionada, e agradavelmente surpreendida, não só por ser acolhida por stand uppers brasileiros como, mais do que isso, ser convidada a participar nos shows deles, com o seu próprio set, se é que lhe podemos chamar assim, como se fosse DJ…

Ainda esta semana, falei com um amigo sobre isso, foi quem usou a palavra networking para se referir a este hábito tão saudável, o de pôr pessoas em contacto com outras para que ambas beneficiem mutuamente do relacionamento, seja profissional, seja outro qualquer. Ainda que com uma possibilidade de business por trás, também ele privilegia as relações entre as pessoas, o espírito de entre-ajuda, coisa que vê muito acontecer em Angola, como eu vi acontecer no Brasil, com muito mais frequência do que vemos aqui. E já trabalhei como copywriter para um amigo dele à conta disso, trabalho esse que me deu imenso prazer e que ainda por cima fez a agência ganhar uma conta, não podia ter ficado mais satisfeita.

Em Portugal não temos muito esse costume, vemos colegas como concorrentes, e não futuros parceiros, nutrimos sentimentos de posse pelos amigos, temos alguns problemas com o sucesso uns dos outros, Portugal tem isso no seu inconsciente, ninguém cresce, só se aguenta o que é mediano. Falei sobre isso ontem, a propósito do lançamento do meu primeiro livro em São Paulo: vou lá prestigiar-te, fazendo questão de comprar o livro. Mãe e filha, namorados, cada um comprou o seu. Prestigiar é um conceito que não temos…

Felizmente, nem toda a gente é assim. Tenho um outro amigo que aqui há dias me pôs em contacto com uma pessoa para me ajudar numa tentativa de um novo projeto que talvez abraçasse, mesmo que nunca estivesse muito convencida de que seria para mim. Sem que lhe tivesse pedido, é natural nele, como é natural em mim, lembrar-se de quem faz o quê e ajudar sempre que pode. Essa atividade não foi para a frente e por momentos pensei que levasse a mal, que me achasse mal agradecida, sei lá. Quando me liga ontem a convidar-me para jantar lá em casa, com uma série de amigos que não conhecia, entre os quais um, de quem já gostava muito e estava curiosíssima para conhecer pessoalmente. Por circunstâncias das nossas vidas, nunca se tinha proporcionado. Ou eu estava a morar no Brasil, ou ele estava a morar por esse mundo fora, ou o amigo dele não estava em Lisboa, porque se mudou para uma localização um pouco mais distante, impossível de fazer de carro. Este meu amigo aproveitou a passagem deste amigo dele por Lisboa e não perdeu a oportunidade. Eu, que estava cansada como há muito tempo não me acontecia, não tinha dormido nada, estava com um mau humor desgraçado, também achei que não podia perder esta oportunidade. Ajoelhada no milho, pedi a deus que não me desse nenhum descontrolo, que não se falasse de temas que me descompensam o nervo, que me preservasse e me protegesse, e lá fui.

E foi incrível, uma noite muito bem passada, da forma mais natural possível, com uma fluidez rara, que correu lindamente. As expectativas, na grande maioria das vezes, são o diabo e eu poderia ter-me desiludido muito, mas não foi o caso. Pelo contrário, adorei, as minhas expectativas foram inclusive superadas e não poderia ter ficado mais feliz com e por isso. Este meu amigo é o maior nisto de organizar cenas, as pessoas combinaram, o jantar estava delicioso e divertimo-nos horrores.

Para além do clássico: gente para quem o poder é uma prioridade e para quem não é, a conclusão a que chego é que é muito de cada um, não tanto da personalidade, quero crer, embora as haja, mas do momento de cada um, em particular, da insegurança de cada um. Se ambos partirmos de igual para igual, não há, nem pode haver, quem se sinta inferior ou superior a ninguém. Já se nos achamos inferiores, ou estamos frustrados na vida e com a vida, temos sempre a necessidade de nos pormos em bicos dos pés, diminuindo os outros para nos sentirmos minimamente gente.

Não faço ideia de como parti, estava como sou, fiz questão de dizer: finalmente, e tratei de contextualizar o moço em relação a trocas virtuais anteriores, para ver se podíamos interagir de forma natural, e não constrangedora, mas não foi calculado, sou incapaz de ser calculista, muito menos com amigos de amigos, e não podia ter corrido melhor. Acho que num determinado momento lhe disse: tu respondeste-me, ao que ele se surpreendeu, como não? E aí tive de lhe explicar: a quantidade de supostas vedetas que para aí andam que não se dão ao trabalho de responder a quem as interpela de forma elogiosa, assim que sobem ao palanque da fama, não está escrita.

Houve momentos em que quase me martirizei por não ser mais racional, me dirigir mais a ele, fazer as perguntas que queria fazer. Durou um segundo. Não cabia ali, não iria sentir-me bem, não seria natural, seria desastroso… Naquele ambiente, com aquela pessoa, deixou de ser prioridade, muito menos objetivo, que nunca sequer chegou a ser, fui lá para curtir, para me divertir, por prazer. E mais, não era certamente a última vez que iríamos ver-nos. Iria queimar o meu filme, deitar tudo a perder. E não podia ter ficado mais contente com o resultado. Foi o que foi e foi excelente. E ainda me disse: escreves bem, vindo de alguém de quem admiro a escrita, que, mesmo sem saber, já me deu toques de semancol que me valeram para a vida, é quase tão bom quanto tudo o que trocámos, porque é disto que se trata, troca, em que todos beneficiam, emocionalmente, que é o melhor.

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