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Os Santos chegaram à cidade

14/06/2007

Não sei em que porta vivia a Mariquinhas mas é essa a canção que cantarolo enquanto estendo a roupa na janela da cozinha, num dos bairros mais bairristas de Lisboa.

Chego de fim-de-semana e deparo-me com a minha varanda envolta num quadrado colorido, cada tira de sua cor, carregadinho de manjericos e balões coloridos, que ocupa toda a largura da rua.

Os Santos chegaram à cidade.

Saio para a rua a trautear: Canta Bairro Alto canta trai lai lai lai lai, lai lai lai lai…

Não há paciência prós Santos ou prás pessoas que estão a cair às 11 da noite porque andaram desde as sete da tarde a empreitar carrascão e a mordiscar uma sardinha ou outra. Toda a gente sabe que peixe não puxa carroça e que álcool em estômago vazio é a morte do artista. É só artistas nas noites dos Santos…

Diz que as marchas são uma tradição. Sou como o JB, quebro as tradições se elas não me disserem nada. Mas como as marchas são do povo pró povo e não tenho pretensões de (des)educar ninguém… Quem é que ganhou? São sempre os mesmos… Ainda por cima era suposto gostar porque parece que a minha mãe se fartou de curtir as marchas 4 meses antes de eu nascer. Pois enganou-se. Não acho piadinha nenhuma. Não sou bairrista a esse ponto e se fosse seria de um bairro que não tem marcha. Coisa fina.

Não tem marcha mas tem um Santo António e eu gosto dele, do Santo António. Não me lembro de lhe ter dado qualquer tostão mas habituei-me de miúda a vê-lo lá no alto sempre com flores aos pés. Todos os dias há flores novas. Acho piada ao facto de ser o santo casamenteiro, padroeiro dos namorados. Só por causa disto é pra mim muito mais lisboeta do que o Vicente. Não acho particular graça “às noivas”. Não às propriamente ditas, essas faço questão de não ver, mas ao conceito. E depois tem uma cara de quem devia ser um bem-disposto. E gosto dos manjericos, e daquele cheiro fabuloso, e das quadras, quando são boas. O Santo António é assim festeiro. Há uma festeira dentro de mim. Não deste tipo de festas, mas festeira ainda assim.

Nem sei já que tradições se mantêm que o que o povo gosta mesmo é de comer e beber. E bailar, vá… Não sei se para alguns não será já uma continuação da semana académica, ou seja, uma boa desculpa pra beber até cair, porque se se enfiarem as bebedeiras todas umas nas outras a ressaca custa menos.

Não há vagar para os foliões da sardinha e do tintol. Não gosto particularmente de sardinhas e muito menos de ficar a feder a peixe a noite inteira. O chouriço tem muita gordura e dessa já tenho que chegue. O vinho faz-me dores de cabeça e depois são os encontrões, os puxões, uma claustrofobia do pior. O giro é encontrar gente que não se vê há anos, mas nem para isso temos paciência.

Mas é muito Lisboa e é que gosto mesmo muito da minha cidade. Principalmente em Junho, porque está em festa. De cara colorida cheia de pessoas mais alegres do que o costume. Que se misturam com a turistada de todas as cores, de todos os tons. E eu estou aqui. Bem no meio, onde tudo acontece.

E que gosto de morar aqui, no centrão de Lisboa – com o cheiro a sardinhas a entrar-me janelas dentro, ouvir um faduncho, vindo de um qualquer restaurante, em vez das músicas dos vizinhos, do ladrar enervante de um qualquer cão de uma qualquer vizinha e do palavrão bravio que vem lá de baixo – isso gosto.

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  • bonifaceo 13/06/2007 at 16:10

    Tra-lá-lá… :D
    Concordo que o povo do que gosta mais nem é do santo, é mesmo ter um motivo para comemorar…

    Já agora, nem tem nada a haver, mas na Bíblia não diz para um gajo não adorar imagens? Então porque gostam tanto os Católicos disso?! :S

    Pronto… ok, dispersei-me…

  • Anonymous 13/06/2007 at 16:17

    Ó Eça: Sto António? Vicente? Não percebi o conceito.
    Álvaro M.

  • bonifaceo 13/06/2007 at 16:45

    *Emenda: não tem nada a ver…
    Não sei porquê mas ganhei há tempos a mania do “nada a haver”…

  • ISA 13/06/2007 at 17:27

    o são vicente é que é o padroeiro oficial de lisboa…

  • Vera 14/06/2007 at 11:00

    já te fiz a vontade… só porque tu pediste ;)
    já podes ir visitar o meu recém nascido blog

    bjs e obrigada :)

  • Anonymous 14/06/2007 at 11:13

    Gostei da palavra “vagar”. Há muito que não a via escrita. Muito bom. Quanto à tradição, não sei se partilho muito o teu ponto de vista. Acho que a ideia é justamente quebrar a regra de andarmos direitinhos, compostinhos e lavadinhos todos os outros dias do ano. Precisamos disso como de broa para a sardinha. Pode ser nos Santos ou, se quiseres, quando Santos, o fernando, nos levar ao campeonato.

  • ISA 14/06/2007 at 14:40

    ;-) os mesmos de sempre, Alfama. n tenho nd contra os santos e mt menos quem os comemora, só n sao a minha onda. é só.
    obg pelos nmes mas n tem de ser bio, tem de pressupor receitas tradicionais e ser criativo é difícil… eu sei…

  • Anonymous 14/06/2007 at 15:30

    oK…tradicionais ainda é pior. Tipo “A loja do…
    ou ainda “A casa do… e o pior de todos “A boutique do Pão” Numa perspectiva contrária, mais margem sul resultam coisas como “A fabrica do pão”. Com parentes também não costuma dar bom resultado, acaba smpre no “O pão da Avó, não desculpa, d’avó ou então na Ti Carcaça e, se for gajo, Ti Mafra. Ainda assim prefiro Bio que dá pra fazer

  • ISA 14/06/2007 at 15:36

    mas quem és tu que és tão giro(a)? :-) já me fizeste sorrir. e olha que hj é difícil…

  • 15º esq 14/06/2007 at 16:42

    Sou o gajo que sobreviveu ao 15º andar. Gostei do teu blog. A partir de agora deixo de ser anónimo e passo a assinar como “15º esq”. O esquerdo é da margem sul

  • ISA 14/06/2007 at 19:04

    :-D tens graça, vês, que sei eu de criatividade??? ‘brigada. bjs

  • 15º esq 15/06/2007 at 10:22

    É mutuo. Tu também tens graça. BJS

  • ISA 15/06/2007 at 11:00

    cheers!

    olha, tu n me queres mandar um mail? precisava de te fazer uma pergunta mas n me apetece que seja pública. Pode ser? is2510arrobahotmailpontocom? n precisas de enviar do teu mail, podes sempre inventar um endereço. Bjs e gracias

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