Livre

O Ovo do Tempo

09/01/2017

O melhor, o que mais encanta e vicia, no processo criativo é a capacidade de nos perdermos no tempo. Indo além do cronológico e entrando num outro, mais lento, onde a passagem não é determinada friamente, de forma indiferenciada, quase cruel, mas na medida da concretização. Deixamos de ouvir o que se passa à nossa volta, entrando noutra dimensão, de tempo e de consciência.

Quando o telefone toca, uma mensagem apita, dou até um salto na cadeira, de tão longe estou do mundo real. Na minha cabeça só há palavras e imagens, nada mais existe.

Idealmente, não tinha internet nem telefone que me distraísse, me ajudasse a fugir de encruzilhadas, de bandidos escondidos em esquinas e becos escuros, prontos para me atacar, me confrontar.

tempo

Escrevo muitas vezes a jato, a minha forma preferida. Palavras com as quais não estou assim tão familiarizada aparecem-me de supetão na consciência e de vez em quando preciso de confirmar o seu significado. É quanto basta. Quando dou por mim, ainda não abri o dicionário, mas já fui ao mail, ao twitter, ao facebook e, se acaso estiver no telefone, ao instagram. Os meus dedos fazem-no de forma automática. Acontece exatamente o mesmo quando me proponho ler durante uma hora. Se pego no telefone para ver quanto tempo passou, dou por mim passados 5 minutos a postar frases edificantes no instagram.

Lamentavelmente, preciso de me concentrar numa coisa de cada vez. E de acordar. Mais lamentável ainda é obrigar-me a ter um tempo determinado para cumprir uma que outra tarefa.

Para evitar distrair-me, muni-me de um…

Ovo do Tempo

Pela primeira vez na vida inteira, planeei o ano, os meses, as semanas. Tudo devidamente escrito. O espírito livre que há em mim não se sente ameaçado, há tempo para tudo e nada disto tem rigor nazi, dá para trocar umas coisas de ordem e tal. Precisava de fazê-lo, pôr baias nos meus dias. Ou perco-me na minha cabeça e acordo lá para março, com tudo por fazer. Os planos são ambiciosos, por isso precisei de medidas radicais.

Comprei-o branco, havia em preto mas achei que estaria a tornar as coisas ainda piores se tivesse escolhido a cor da sombra. Marco o tempo pré-definido para determinada tarefa na esperança de, um dia, deixar de ouvir o tictac, é altíssimo…

Aumento o volume da playlist da musiquinha de piano relaxante quase zen que guardo religiosamente no Spotify, para logo me arrepender amargamente quando entram os anúncios. Até agora nada. Não aguento nem vozes, quanto mais o tictac irritante do tempo cruel que passa sem que nada possa fazer para o travar. Ignorei-o uma vida inteira, quando acordei tinha 44 anos e o meu pai tinha morrido. Mas vivo nele e dele, tenho de o aguentar, é uma baia como outra qualquer. Podia era passar mais baixo… Ou parar, só um bocadinho, até me habituar, deixar de o ouvir, me pressionar, me condicionar, me enervar… Acho que vou enfiá-lo debaixo de uma manta, é capaz de ser a única forma de o ovo durar até à Páscoa…

You Might Also Like

error: Content is protected !!