Pá e Bola

03/11/2016

Há um filme que começa com o Ewan McGregor a receber um telefonema de uma mulher, aceita um encontro com ela, que é incrível, a sua presença pode eventualmente até assustar mas, como mantém o interesse, ele não se inibe e vai em frente. Fazem o que têm a fazer e vai cada um à sua vida. A mulher tem a desenvoltura de uma escort, uma profissional, o desprendimento de quem sabe que é só daquela vez, a frieza de quem não está completamente à vontade naquilo e o cagaço velado e implícito de quem não quer envolver-se, é mais uma necessidade do que outra coisa, para depois poder voltar ao mundo empresarial sem carências de maior que a impeçam de ser a bitch do costume. E o protagonista, apesar de não perceber nada, acha graça àquilo, atrevendo-se a ligar para outra mulher, e a história repete-se…

Na altura, achei uma boa ideia, quase uma solução, asséptico, sem a neurose de todos os dias, sem cobrança, sem entrarem na intimidade um do outro, que muitas vezes só numa conversa de coração para coração se consegue, quebra um galho no nervoso e no stress e inclusive emagrece. Sem mimimi, sem conversinha de circunstância, o clima foi preparado antes, mentalmente, aquele é o propósito e pronto. O gajo que há em mim adorou, inclusive. Lamentavelmente, não funciono dessa forma, gosto da ideia, mas sou demasiado sentimental.

É então com algum pesar que descubro que comigo a coisa não pode ser assim, pá e bola. Não no que à intimidade diz respeito. O meu ego precisa de ser preparado para tal de modo a conseguir lidar com a vulnerabilidade da intimidade.

Adoraria ter esse desprendimento, ser profilática no que à intimidade diz respeito, lamentavelmente, não sou assim tão desprendida. E faz-me confusão que se lide com o sexo como se fosse um ato mecânico, uma forma de satisfazer o ego, consumir algum nervoso, sem se considerar a ligação que fica entre duas pessoas que se cruzam, o vínculo que se estabelece, a marca que deixam uma na outra, quer queiram quer não. Mesmo que nunca mais se vejam, se esqueçam que alguma vez se envolveram. É mito essa questão da separação do sentimento, da emoção, do vínculo, do físico, como se fosse possível separar de facto a cabeça de tudo o resto, não é. Podemos até iludir-nos a esse respeito, mas nós só nos ligamos e desligamos quando todas as partes de nós, cabeça, coração e desejo, concordam, estão unidas, comprometidas entre si. Para não falar na questão essencial, há corpo envolvido, há emoções na parada e, por mais que nos custe admitir, a cabeça não resolve tudo, nomeadamente as marcas deixadas no corpo, por dentro e por fora… A emoção que não se explica, a sensação de plenitude, o vazio subsequente… E não há prova maior do que o desconforto que fica depois, que se manifesta de forma diferente entre homens e mulheres e que pode dar azo a enormes dissabores, assumidos ou não.

E a intimidade é-me demasiado preciosa, e acagaçante, para a partilhar assim ao deus dará, sem continuidade, como quem troca de camisa, atirando a usada para o cesto da roupa, esperando que volte passadinha a ferro, como nova. Nós, o nosso corpo, as nossas emoções, não somos coisas que possamos deitar fora e trocar por novas, não somos descartáveis, como o consumismo desenfreado nos quer fazer crer. Temos de nos aguentar aos anos, às rugas, ao emperramento, temos de viver com eles, mesmo que haja cirurgias suficientes para nos iludir em relação à passagem do tempo e à vida que vivemos. E eventualmente escolher bem com quem os dividir. A nossa cabeça regista tudo, mesmo o que o nosso ego insiste em não querer lembrar-se. E são esses registos, essas memórias, que eventualmente nos condicionarão depois, levando-nos inclusive a fazer o que não queremos verdadeiramente, mas o que o nosso inconsciente nos induz a fazer, como se não passássemos de marionetas, deixando o nosso ego sem poder algum sobre nada nem ninguém… E se serve para alguma coisa, é para nos proteger, sendo com ele que a negociação é feita. Essa e todas as outras…

  • Bel 06/11/2016 at 10:28

    Ai… Já imaginei agir assim.. não deu certo. E você explicou direitinho o porquê.
    (Mas como disse no post que você leu sobre o “sótão da alma”, não me arrependo!!! Risos) ?

    • Isa 07/11/2016 at 15:07

      já imaginei, já quis, e já agi, nada como um one night stand sem compromisso…. De vez em quando ainda quero, mas não consigo. :)

  • JELLYCODE 10/11/2016 at 15:11

    TESTE JELLYCODE

    • Jellycode 10/11/2016 at 15:17

      teste reply

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