Livre

Pai Mágico

23/02/2016

No outro dia comentei no blog intimista do Filipe sobre o facto de ser tão português as mulheres conduzirem as operações nas famílias, acrescentando que um dia ainda haveríamos de falar sobre isso, no papel masculino das mulheres e no feminino dos homens portugueses, que é exatamente o contrário do que foi definido por Jung no que se refere ao masculino e ao feminino psíquicos.

Ontem, ouvia um psicanalista junguiano brasileiro falar sobre complexos, entre os quais os mais básicos de todos, materno e paterno. Dizia ele que o Pai arquetípico é o orientador, o provedor, quem protege, para tal precisando de força física, e, já mais velho, o Grande Pai – em francês, curiosamente, avô diz-se grand-père – é também conselheiro, associado à sabedoria.

Já aqui tinha falado uma vez nas mulheres portuguesas e no orgulho que temos em nós. E que às tantas pode ser pernicioso. Mas foi quando ele falou, a propósito de alguma coisa que já não me lembro, no pai mágico, que vai lá e resolve, que se fez luz.

Já há algum tempo que tinha essa ideia, a de que os portugueses querem um pai, o exemplo do Estado Pai está aí para prová-lo, o facto de a grande maioria dos portugueses esperar que lhe resolva a vida. Talvez as mulheres/mães portuguesas tenham essa característica, a de querer os filhos no ninho, e estes, apesar da rebeldia da adolescência, não sejam assim tão capazes de fazer o corte umbilical com a mãe e procurem mulheres com as mesmas características, mas é aos filhos que cabe esse papel, o de deixarem de ser filhos apenas para passarem a ser homens, capazes de serem pais. Para que não esperem que um pai mágico que nem sequer existe lhes resolva a vida e passem eles mesmos a fazê-lo e a sê-lo, pais, homens, orientadores, com o arquétipo no sítio, sem ser preciso recorrer à agressividade, que é uma manifestação negativa do masculino, do paterno.

Talvez também os homens precisem disso, de se rebelar, de ser autónomos, de se recusarem a ser filhos das mulheres, de, de certa forma, de crescer, deixando o Peter Pan para as histórias que contam aos filhos. E as mulheres portuguesas de ser um bocadinho mais mulheres, mais próximas do arquétipo materno, que cuida, acolhe, nutre e contém, os filhos, não toda a gente e mais alguma.

A cada um, o seu papel, pelo menos na dinâmica da relação. Para que sejamos companheiros de vida, de jornada, e não co-dependentes uns dos outros. Porque essa co-dependência pode satisfazer o casal, mas não é tão satisfatória nos efeitos que produz nos filhos, homens e mulheres.

Não sei se o Filipe vai gostar muito desta minha conclusão, sequer sei o que tem a dizer sobre o tema, estou inclusive bem disponível para o ouvir, ou ler…, mas é a conclusão a que cheguei, e vale o tempo que durar.

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  • Maria Francisca Beija 23/02/2016 at 19:24

    bom isto resumiu muitas das minhas sessões de psicoterapia xD

    • Isa 23/02/2016 at 19:35

      Sério? Caramba, então eu ‘tou lá… :) Bjo, miúda ;)

  • fnvvFNV 24/02/2016 at 11:16

    Bem, eu sou pela anarquia de papel. Os teus leitores não têm o link para o meu registo humorístico ( não intimista) por isso devo informá-los.
    Anarquia de papel pode ser exemplificada com o sexo: ora dominas tu ora domino eu, ora quero mais eu ora queres mais tu etc. E se nus conseguimos, vestidos ainda melhor…

    • Isa 24/02/2016 at 11:51

      AHAHAHAHAHAHA Sim, isso é na verdade o que acontece, por haver várias formas de domínio, as sombras de Grey estão aí para prová-lo :). tendo a cair na posição da vítima, por isso muita vezes caio na falácia de ver apenas por essa perspetiva, mas é isso é ;)

      No entanto, escapaste-te à questão masculino x feminino, que era o tema da conversa… :)

      Desculpa, foi uma posição egoísta a minha, não divulguei porque agora dei pra isto, pra guardar o melhor só pra mim :)

  • Joaquim 29/02/2016 at 19:02

    Olá Isa,

    É mt difícil as crianças cortarem o cordão umbilical. Normalmente são as “mães” que o cortam.
    Se observarmos o k se passa com outros primatas, verificamos que o último filho mas vezes morre pouco depois da mãe. A mãe, já velha não teve energia para correr com a cria e a cria não “cortou o cordão umbilical”.
    Será que está aqui alguma metáfora para o k se passa com o Homo Sapiens?
    Joaquim

    • Isa 01/03/2016 at 18:03

      A diferença é que nós não somos primatas, temos consciência e isso muda tudo.

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