Perfeição

08/12/2017

A perfeição é uma pretensão do ego. Que é medrosinho, tem pavor do julgamento, da crítica. Ajudado pela persona, que não concebe uma série de coisas para si, bloqueia o canal da criatividade e da ousadia. 

Be willing to paint or write badly while your ego yelps resistance
Artist’s Date 337/365 – Gild pinecones (6 Dez.)

Estar à espera de criar o quadro perfeito, o livro perfeito, a música perfeita, o desenho perfeito, à primeira, é um desejo do patriarcal, um delírio de grandeza que encaixa bem no ego, mas não passa disso mesmo.

Nem da ideia

E ficar na ideia é meio caminho para a frustração, embora possa parecer um lugar seguro. Enquanto ficamos na ideia e não nos chegamos à frente podemos criticar à vontade. Já que não há dedo que se nos possa apontar. Afinal, não temos nada para mostrar.

perfeiçãoA perfeição, ou o mais que nos consigamos aproximar dela, já que esta não existe, é subjetiva, vem com a prática. A posterior exposição é uma validação que o ego e a persona dão ao criativo em nós. Que faz o melhor que pode e sabe por amor à criação, à arte.

O ego vem depois.

Diz-se dos artistas que são egocêntricos. Todos somos. E antes egocêntrico do que falso modesto. É mais autêntico. (São mais ou menos sinónimos, a falsa modéstia é um sinal de narcisismo).

A criação vem de outro lugar, outra necessidade, outro desejo, mais visceral. Já que é parte do criador. Nela está a alma, o sangue, as horas acordado. O medo, a vergonha, a coragem, a determinação. Está tudo o que o criador tem de melhor e de pior. É o risco que se corre. Se o trabalho é sério, são as suas vulnerabilidades que estão a ser escrutinadas. Está tudo quanto o criativo tinha para dar naquele momento, naquele contexto. É isso que dói.

A perfeição é uma ilusão. Uma obra pode estar tecnicamente perfeita e não emocionar. E não estar tão perfeita assim e tocar profundamente quem dela desfruta, fazendo da mesma sucesso mundial.

Sometimes I will write badly, draw badly, paint badly, perform badly. I have a right to do that to get to the other side
Artist’s Date 338/365338 – Sing a Folk Song (7 Dez.)

O que gostávamos de fazer quando éramos miúdos não é coisa de criança. Quando somos crianças é quando mais estamos próximos da nossa essência, do nosso Self, do que nos toca na alma e verdadeiramente importa. A infância é um ótimo laboratório. E um lugar incrível a revisitar sempre que quisermos descobrir o que nos nutre realmente. O que é verdadeiramente nosso. Não é estupidez, infantilidade ou perda de tempo. É o mais autêntico que temos, o que nos conecta realmente, e só por isso uma preciosidade.

Recovery urges reexamining our definitions of creativity and expanding them to include what in the past we called hobbies
Artist’s Date 339/365 – Learn origami (8 Dez.)

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