Pertencimento

21/05/2020

Tempos houve em que me angustiava sentir que não pertencia a lado algum. A necessidade de pertença é uma das consideradas vitais quando falamos de necessidades emocionais. Agora, talvez por ter-me acostumado, e até goste, me orgulhe, de ser uma misfit, não me faz tanta confusão. Apesar de, às vezes, ser um bocadinho solitário.

E já me deixei de ilusões quanto à suposta proteção de uma entidade. pertencimento

Nunca me filiei num partido político. Ou aderi a religiões. O clube de futebol pouco me diz. Não aguentei o mundo corporativo, nem uma série de outros grupos, porque há princípios dos quais não abdico. E porque quem determina o que posso e não fazer, dizer, defender sou eu. Vejo e ouço coisas indefensáveis e injustificáveis escritas e ditas por gente, obrigada, coagida, levada, pelo grupo em que está inserida, desde ideológico a desportivo, que me fariam cobrir de vergonha. E com as quais me orgulho, desde sempre, de não pactuar.

O preço da minha liberdade é alto, para não dizer, impossível.

Um fim-de-semana destes, falava com um primo que me contava que o chefe lhe tinha proposto ficar com um cargo para o qual o meu primo sabia que o colega com quem partilhava a sala estava a concorrer e a tudo fazer para lá chegar. Perguntou-lhes se estavam a gozar com ele…

Antes de me contar esta história, e só por me dizer: mal ou bem, não fui educado para isto, já sabia do que ia falar, respondendo: não aguentei o mundo corporativo por causa disso, não estou disposta a ser a bitch de serviço.

Não consigo viver com isso…

Ainda não dançava onde agora danço, e o mestre, por ocasião do seu aniversário, em que me coloquei como agente infiltrada num espaço que ainda não era o meu, e que não sabia que viria a ser, de propósito para lhe dar os parabéns, fiz questão, respondeu-me, com uma generosidade infinita, que eu pertencia ali. E lembro-me de ter gostado imenso de ouvir.

Talvez soubesse antes de mim que iria lá parar…

Agora, um ano e meio depois, tenho a certeza que pertenço, que aquela sala, numa paralela da avenida da Liberdade, é a minha casa. É assim que lá me sinto, todas as terças-feiras.

Mesmo considerando aquele buraco escuro onde ninguém entra, nem nós, aquele com a porta entreaberta, que, quanto muito, pode ser alvo de uma espreitadela, mas nunca de uma entrada, nem mesmo ficando no hall. Talvez não pertençamos completamente a lado nenhum ou a pessoa alguma. Pertencemos aos bocados, partes de mim pertencem a partes de ti, de um espaço, de uma atividade. Pertencem não no sentido da posse, mas da identificação. E outras pertencem a outros.

E talvez só pertençamos na totalidade a nós mesmos…

Março 2018

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