Pica-miolos

04/06/2016

A Marcela Tavares, carioca apoplética com o sotaque mais paulista que ainda vi, tem uma expressão fabulosa para definir os pica-miolos. Fala nisso neste vídeo, que a própria intitula: os vendedores chatos. Um exemplo perfeito de pica-miolos é a mulher do GPS. A pessoa está perdida, enganou-se, não obedeceu e a mulher não para de falar, de dar ordens, é de enlouquecer. Mas a mulher do GPS é uma máquina, dá para desligar. O pior é, como diz a Marcela, gente que fica andando atrás de mim e falando na minha cabeça o tempo todo, não me dando espaço para respirar, sequer pensar. A pessoa precisa de uma liberdade, diz ela. Eu digo que na minha cabeça já mora gente que chegue, não cabe nem mais uma alma, viva ou morta. É isso, também eu fico p*ta com aquela gritaria no meu ouvido. A jaula onde mora o monstro que habita o porão escuro da minha cabeça abre-se e deixo que seja ele a lidar com o assunto. Seja onde for, com quem for que me invada dessa forma, me atropele, não me deixe falar, não me dê espaço para pensar, me tente agarrar numa rede, numa teia mental distorcida, doente, ditatorial, castradora e controladora. ‘Tou fora. Fora de gente que sufoca. Também eu pego ranço. Não sei quem foi o imbecil que inventou esta técnica, mas comigo não pega, só quero é ver-me livre da pessoa e rápido. Também eu não tenho estrutura emocional para lidar com este tipo de abordagem, também eu já falo muito e fico maluca se estou com gente que fala muito também. A minha cabeça não para um segundo, sou intensa demais. A minha reação é extremada ao ponto de me tirar do sério. E desta vez nem foi por falta de aviso, é mesmo porque falta de semancol na veia. Um, dois, três avisos e chega. E o que mais me irrita neste tipo de personalidade, mais dissimulada do que eu sei lá, a que não quer falar, trocar, ouvir, conhecer o outro, sequer dar, apenas quer cortar a conversa, invadir, diminuir, desmoralizar, é o aparente poder que exerce sobre mim. É o meu instinto de sobrevivência que me faz reagir, não tenho a menor dúvida. Em algum canto da minha cabeça, sei que aquilo é uma ameaça, à minha integridade emocional, tenho a certeza disso. E mais do que o que me tira do sério, o pior é ficar com pesos na consciência, dúvidas existenciais, caraminholas. É aquela velha máxima dos manipuladores/controladores/psicopatas/agressivos-passivos/agressivos simplesmente, cada um em separado ou todos ao mesmo tempo: adotar uma postura provocadora, agressiva, violenta, invasiva, sufocante, uma pessoa avisa uma, duas, três vezes, diretamente, indiretamente, tenta ignorar e, já a espumar e com a cabeça a estoirar, reage e é esta que fica mal na fita, na fotografia, a que passa por maluquinha, agressiva, descontrolada, mal-educada. A grande vantagem de ter 40 anos é que me estou borrifando e reajo mesmo, ficar com a esquizofrenia alheia para mim é que não fico mais, a minha chega-me bem.

A Marcela também é intensa, também fala muito, é igualmente teatral e manifestamente exagerada, mas tem graça, porque espontânea. E com graça quase tudo se perdoa e muito pouco se leva a sério.

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