Livre

Pilates e Bróculos II

21/11/2015

É possível odiar e amar um tema, dependendo de quem no-lo explica, como me aconteceu com Direito e História. No liceu, tive professores de História que me fizeram achá-la um tédio, na faculdade tive o privilégio de ter um que me fez amar História Universal até hoje, curiosamente, o mesmo que deu aulas ao meu irmão mais velho, quase dez anos antes, e fez dele um apaixonado por História para o resto da vida. Tudo o que sei de História Universal devo-o a ele, absolutamente tudo. Tive um outro, que de vez em quando aparece na TV, que, para além de ser giro e charmoso daqui às estrelas, tinha uma voz que, para além de também nos levar às estrelas, tinha um tom grave-perfeito e baixo, e, ainda assim, conseguia calar uma turma de praticamente 30 mulheres, e um ou dois gajos. Tudo o que sei de História de Portugal do século XX, apesar de ir às estrelas e voltar enquanto falava, devo-o a ele. Já no caso do Direito, ambos na faculdade, amei Introdução ao Direito porque estudei com um professor meio maluco que nos dava casos para “julgar”, de menores, família, sucessões, obrigações, com direito a contratos-promessa e tudo, em que, nas frequências, ele dava nomes de personagens de novelas aos intervenientes e terminava com um Quid Juris? Todos os conceitos de Direito de que me lembro, ainda me lembro de alguns artigos…, devo-o a ele. Foi graças a ele que me dediquei à tradução jurídica durante uns bons anos. Tema do qual a grande maioria dos tradutores quer fugir porque é dificílimo, a linguagem é completamente fora do comum e um gajo precisa de tirar um curso só para interpretar os artigos dos Códigos. Também estudei Direito Internacional Público com ele, só ele me faria fazê-lo sem me esgatanhar toda e amaldiçoar a minha vida, e a dele, para sempre. O que era completamente diferente dos professores de Direito de todas as pessoas que não se licenciaram em Direito mas tinham a cadeira por algum motivo, que se limitavam a mandar o povo decorar teoria, o Castro Mendes, que era ótimo porque muito objetivo, nós ficámo-nos pelas dez primeiras páginas se tanto… Já no último ano, tive um de Comunitário que me fez ir reclamar com o que me tinha dado aulas no terceiro ano a perguntar-lhe o que é que se passou na cabeça dele para nos pôr aquele mono como professor.

Já no caso de alguns temas específicos, nem o maior especialista, o senhor doutor professor catedrático génio, me faria gostar. Até ao dia em que alguém sabe fazê-lo, sem precisar de metade dos títulos. Nunca na vida achei que ia conseguir ler um artigo sobre a construção de uma ponte, pois o Gay Talese não só conseguiu fazer-me ler um texto em que falava inclusive no número de parafusos usados para construir a Ponte de Brooklin, como me fez devorá-lo e amá-lo, mas o Gay Talese é um artista nessa nobre arte de escrever jornalismo literário, e estou convencida que só ele conseguiria essa proeza. Um tema que me faz querer, lá está, atirar-me da ponte de Brooklin abaixo só de pensar em ouvir falar é tudo o que envolva números, sistemas financeiros, investimentos, tudo o que se relacione com a área financeira. A Bolsa para mim é o maior mistério do Universo, por exemplo. Ouço falar em números e começo a revirar os olhos, e a minha cabeça voa para longe, sem hora para voltar. Mas o meu querido Gonçalo conseguiu a proeza de me fazer entender como tudo isso funcionava no tempo em que escrevia para o Público sobre fundos de investimento, que, para mim, era um planeta muito, muito distante. Foram os únicos artigos de jornal de finanças que li na vida. Lia-os porque conhecia o autor, mas só os acabava porque eram muitíssimo bem escritos. E eu ficava a sentir-me um génio por perceber aquilo tudo.

Tal como também acontece alguém conseguir fazer do tema da nossa vida uma chatice sem nome. Aconteceu-me no Brasil, numa aula de sonhos. Felizmente, tinha tido, no ano anterior, o melhor professor de Sonhos e Mitologia com que alguma poderia sonhar. Foi ele que me fez amar mitologia profundamente.

Não há pessoas burras, há pessoas com maneiras de aprender e entender as coisas diferentes e com interesses diferentes. Também há pessoas que têm mais propensão para umas coisas do que para outras, cuja apetência se encontra em pontos diametralmente opostos do cérebro, e que estão mais ou menos desenvolvidas, porque não há como desenvolver tudo, umas têm forçosamente de ficar para trás. Seja como for, milagres acontecem, basta que sejamos apaixonados pelo que ensinamos, criativos e/ou tenhamos uma objetividade e uma capacidade lógica das boas, capazes de transformar assuntos complicados em meia dúzia de pontos, sem sequer ser preciso contar uma histórinha, apesar de eu gostar de uma boa histórinha. Que serei capaz de reproduzir, já as explicações financeiras e a descrição da construção da ponte de Brooklin, essas estão alojadas numa parte qualquer do meu cérebro, certa de que dificilmente voltarei a precisar delas, porque os temas sinceramente não me interessam. Seja como for, não será assunto novo. E terei sempre a quem recorrer sem perder o meu tempo e odiar a minha própria vida por me meter num negócio desses…

Depois, há os temas que não são para nós e esses, a partir de uma certa idade, não têm importância rigorosamente nenhuma. É mudar de assunto se acaso surgir ou mudar de pessoas. Não há pior do que falar sobre um tema e quem não se interessa por ele não ter a coragem de se pôr a andar e, em vez disso, ficar a perturbar quem quer ouvir, e quem está a falar.

Da próxima vez que chamarem burro, desinteressado, limitado, a um filho vosso, e o acusarem de perturbar os outros, lembrem-se, o mais provável é que o professor não saiba como chegar a ele. Se há pessoas interessadas neste mundo são as crianças, que ainda por cima são umas esponjas. E os adolescentes, apesar de tudo, ávidos de saber. É sempre muito mais fácil taxar uma criança de burra e pôr-lhe esse ou qualquer outro rótulo na testa, que o vai marcar para o resto da vida e lhe limitar o incrível potencial que tem, todos temos, do que dar-se ao trabalho de querer conhecê-lo e fazer dele um adulto confiante e criativo, que é do que o mundo precisa.

You Might Also Like

  • manuel soares 22/11/2015 at 16:10

    muito bem. . . Isabel!

  • error: Content is protected !!