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Poder x Autoritarismo

23/09/2013

Sempre fugi do poder, de todas as formas em que se apresenta, mas, sem que me desse conta, não fugi das mais subtis… Sempre fugi do poder, achava eu, caindo no autoritarismo, fugindo dele e de todos quantos o representavam, quantos espelhavam o meu próprio autoritarismo. Nós só fugimos de nós mesmos… Percebo isso agora, do que fugi, na verdade, foi do autoritarismo. Qualquer dos lados: dominador e dominado foi lugar onde nunca quis estar. 
Há diferenças cruciais entre um e outro, o poder é o que te permite seres tu, fazeres as tuas próprias escolhas, decidires o que queres para ti, o poder liberta-te o suficiente para que possas dizer não, sim, vou pensar, não sei, nunca tinha pensado nisso, deixa-me em paz. O teu poder é o que permite não entrar numa discussão idiota que não te leva a lugar nenhum. O poder serve para tomar decisões, permite-nos escolher a roupa que vestimos, a profissão que exercemos, os amigos com quem queremos partilhar algumas coisas, a pessoa com quem queremos partilhar tudo o resto, o que é partilhável. O poder serve para que possamos decidir com quem queremos estar, ficar, quem devemos deixar ir, de quem devemos manter distância, sabendo exatamente porquê. O poder, podes até chamar-lhe ego, serve para te impedir de correr riscos desnecessários, para assumir riscos concretos, para te permitir viver o que tiveres de viver. O poder serve para não te deixares subjugar, dominar, sem que com isso precises de ser tu o dominador…
Diz-nos Adler que a luta incessante pelo poder é a grande desgraça da humanidade, e está certíssimo… O problema não é o poder, é quando se torna um objetivo, transformando-se, inevitavelmente, em autoritarismo, quando o usamos para dominar o outro, o subjugar a nós, à nossa vontade, à nossa neurose, ao nosso delírio de grandeza, à nossa maior fraqueza, a de não conseguirmos permitir-nos ser vulneráveis. Vira autoritarismo quando o ego perde o contacto com o self – é então para isso que serve o eixo ego-self, é assim que funciona – quando o mais importante é ter razão, é estar certo. O poder vira autoritarismo quando é tomado por um complexo… fazemos qualquer coisa, dizemos as maiores barbaridades uns aos outros, apenas e só para ter razão, numa tentativa vã de dominar o outro a qualquer custo, porque só assim somos felizes, pensando arrogantemente que dominamos quem quer que seja… O ónus é a perda, sempre, por mais que achemos que ganhámos o que for, nomeadamente uma discussão. O que perdemos realmente é o contacto connosco, a oportunidade que um confronto nos dá de nos conhecermos um bocadinho melhor, de vermos em nós o que nos esforçamos ao máximo para esconder. Ninguém ganha uma discussão, ninguém convence ninguém do que quer que seja, o que acontece é que o outro perde a paciência, antes de perder a cabeça… Dá mais importância ao relacionamento do que a qualquer outra coisa, desde que sinta que o outro lado se mede pelos mesmos padrões. No dia em que percebe que não é assim, cansa-se e vai à sua vida, saindo, portanto, vencedor da maior batalha de todas, a que trava consigo (e não contra si) mesmo.

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  • Patife 23/09/2013 at 16:37

    Essa é uma batalha que vai durar sempre… ;) E ainda bem que assim é.

    • Isa 23/09/2013 at 16:47

      :) olha olha, quem é ele ;) vai durar sempre, sim, não temos outra hipótese, eheh, é a mais difícil de todas e ao mesmo tempo a única que vale a pena ;)
      Bjo, sê re-bem-vindo :D

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