Polícia

12/04/2021

Devíamos ser umas 20 pessoas, espalhadas por várias mesas, não mais do que quatro por mesa. Copos e pratos há muito vazios, apenas sedentos de convívio, vida ao ar livre, contacto, alegria, diversão. Tudo o que faz parte de uma vida saudável. Do nada, sem aviso prévio, sem contas na mesa, a dona do espaço vem à porta e grita:

Vocês têm de bazar agora.

Pensei imediatamente que uma reação destas, de uma pessoa doce e sorridente, só poderia ter um motivo: a polícia estava lá fora.

Sem questionar, sem ondas, todas as pessoas se levantaram e começaram a dirigir-se para a porta. Eu fui uma das primeiras, mas resolvi, já dentro do espaço e perto da caixa, esperar pelas duas amigas com quem estava.

A maioria das pessoas saiu sem pagar.

Optei por não o fazer, não queria prejudicar ainda mais a miúda que esteve sem o seu meio de subsistência durante meses a fio.

Tínhamos umas quatro pessoas à nossa frente e o miúdo que estava na caixa, visivelmente nervoso, tentava despachar as contas o mais rápido que conseguia. Em minutos, ficámos apenas nós três, a dona do espaço, o namorado dela, uma amiga francesa e o miúdo que estava na caixa, irmão da dona do espaço.

Este espaço fica numa zona residencial, para o caso tanto faz. Soube mais tarde que houve vários raides policiais pela cidade toda.

Perto da porta que dava para a rua, a dona do espaço falava com os polícias, pelo menos uns três à volta dela, para tentar entender o porquê de 5000 euros de multa.

O namorado, perante o que era um manifesto exagero de homens à volta de uma mulher, conhecida forma de intimidação, ainda mais quando esses homens estão fardados, fazia o que podia para enfrentar pelo menos seis agentes da polícia, num espaço onde havia cinco mulheres e dois homens, um deles na caixa. Três carros da polícia lá fora.

Quando prenderam o Sócrates, havia um carro, que sequer estava identificado.

Mantive-me perto da caixa, à espera para pagar, só queria sair dali o mais rápido que conseguisse.

O que aconteceu depois, não consigo explicar.

Só vi o namorado da dona do estabelecimento pegar-lhe ao colo, deitá-la, e ouvi a dificuldade que estava a ter para respirar. Uma crise de pânico causada pela intimidação por parte da polícia e pela perda de auto-controlo do namorado, perante tamanha insanidade e abuso.

Não só a ameaçaram com uma multa de 5000 euros como acabara de ouvir, quase inanimada, que o namorado ia ser preso, alegadamente por injúria a um agente da polícia, por sinal super agressivo.

Na sequência disto, esse mesmo agente perguntou-me, a mim e a todas as outras mulheres, quem éramos, agressivo, sem que NINGUÉM tivesse perdido o controlo a não ser o namorado da miúda.

Confesso que nem percebi a pergunta.

Era simplesmente uma cliente.

Foi dada voz de prisão ao rapaz, enquanto a miúda lutava para respirar. E assim ficou pelo que pareceram minutos sem fim. O miúdo que estava na caixa, irmão dela, correu para a socorrer. E com ela ficou até que reanimasse, se sentisse melhor, recuperasse as forças e a consciência.

Continua…

  • Ana 12/04/2021 at 20:10

    Que horror. Um negócio familiar, onde vai somente quem quer, e ainda assim é este exagero todo. Os maiores-das-suas-aldeias agora com o apoio da população para abuso de autoridade. E eu que não tenho disponibilidade nenhuma para pintas desses, até tenho medo de me cruzar com um.

    Espero mesmo que as pessoas comecem a abrir os olhos, caso contrário, não tarda, ainda começam a balir.

  • error: Content is protected !!