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Porque é que ninguém fala disto?

17/10/2015

No meu facebook é como na farmácia, há de tudo. Não sei se no vosso também acontece, mas no meu, volta e meia, alguém se lembra de postar qualquer coisa do género: “seleção nacional de andebol de pessoas com síndroma de down vence campeonato mundial”, com a legenda: porque é que ninguém fala disto? Quem diz pessoas com síndroma de down diz paraplégicos, tetraplégicos, e por aí fora, no que ao campo vastíssimo das doenças e incapacidades físicas diz respeito.

O motivo é mais ou menos o mesmo que levou Matt Damon e a Globo a aconselhar estrelas de cinema e tv a não divulgar a sua homossexualidade. E tem a ver com fantasia.

A fantasia ocupa uma boa parte do cérebro e do tempo mental de cada um. Sem sonhos não somos grande coisa, sem fantasia somos profundamente infelizes, sejamos crianças ou adultos.

E se a fantasia pode passar pelo desejo de consumar um affair ou quiçá um casamento para o resto da vida com uma estrela de Hollywood, também pode estar relacionada com o desejo se ser reconhecido mundialmente por um feito histórico e difícil para o cidadão comum.

As fantasias de gente com autoestima visam feitos felizes, grandes conquistas, admiráveis pelo comum mortal. As fantasias de gente sem autoestima visam o protagonismo de feitos heroicos à custa da desgraça alheia, da violência, da destruição. Mas uma coisa não visam, algo que lhes dificulte a vida, pelo contrário, a concretização de uma fantasia serviria supostamente para, de alguma forma, lhes aliviar a existência. E prender-se-ia com algo de que nos julgamos capazes ou que adoraríamos concretizar, tivéssemos corpinho ou cérebro para isso. Tem a ver com as nossa paixões, os nossos traumas, os nossos desejos não consumados.

Daí que o facto de a seleção nacional de andebol de pessoas com síndroma de down ser campeã não interesse ao cidadão comum, porque é uma coisa à qual este não quer aspirar, nem pode, que é ser campeão mundial de andebol de pessoas com síndroma de down, simplesmente porque ele não pode ter síndroma de down. Já no caso de tetraplégicos e tais, os feitos destes interessam a pessoas nas mesmas condições, lá está, porque lhes dão a esperança de também elas chegarem lá, a esse estatuto, onde a vida, acreditam elas, será mais fácil. Como é óbvio, quem não está nas mesmas condições, não quer nem almeja estar…

A fantasia não é necessariamente literal, por mais que admire o Cristiano Ronaldo não almejo a ser homem muito menos jogador de futebol, mas há características dele, que o fizeram chegar onde chegou, que me fazem admirá-lo e de alguma forma ter vontade de privar com ele, a ver se por osmose as adquiro e as adapto a mim e à minha realidade. Pelo menos irritava a D. Dolores.  Como se o Cristiano Ronaldo, ou quem quer que seja, tivesse a solução para a minha vida. Muito provavelmente tenho-as, ou não as projetaria nele, só não as desenvolvi, não lhes dei demasiada importância, e obviamente que não me refiro ao 6 pack ou às pernas musculadas. E todos sabemos que a fantasia só funciona enquanto for fantasia. Por isso, na grande maioria das vezes, mesmo tendo a possibilidade de materializar a fantasia, não o fazemos. E quando o fazemos acabamos sempre desiludidos, porque o objeto da fantasia não é mais do que o que projetamos nele, inspirados pelo que achamos que conhecemos dele, que é apenas e na melhor das hipóteses a sua persona. O Cristi deve ser um gajo difícil pra cacete de lidar.

De resto, as pessoas falam, divulgam, partilham, comentam o que lhes alimenta a neurose, o que precisam de ver validado, o que querem validar, e isso é pessoal e intransmissível, apesar de muitos temas fazerem parte do consciente e inconsciente coletivo de todos nós e por isso serem comuns.

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  • wapi 19/10/2015 at 17:42

    As pessoas gostam muito também de viverem a policiar a atenção alheia, como se todos tivéssemos obrigação de ter os mesmos gostos e os mesmos interesses e querermos todos apoiar as mesmas causas. Como é sempre bonito vir defender “os fracos”, fica muito bem vir perguntar porque é que ninguém lhes dá atenção, mesmo que depois continuem sem fazer nada para que essas pessoas deixem de ter papel de cidadão de segunda categoria.

    • Isa 19/10/2015 at 17:45

      eu acho que por trás disso há a profunda e enraizada necessidade de ser infeliz e portanto tudo o que soe a desgraça é exaltado ao expoente máximo. Uma doença é uma desgraça, por mais que o seu portador ganhe o campeonato mundial de andebol de pessoas com síndroma de down…

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