Livre

Poseidon e Perséfone

14/07/2013
E é quando passas o sinal de fim de autoestrada, já depois da curva acentuada à direita que sai da A5 para entrar naquela linha reta, com um olho no conta quilómetros para não passares dos 70, e outro no horizonte, que é limitado por causa das copas das árvores que te impedem de o ver, ainda te lembras dos carros brancos que ficavam escondidos perto da bomba do lado direito, para apanhar os condutores mais distraídos em falso, fazendo um esforço inaudito para não pisares no acelerador, vai saber se os gajos ainda lá estão, e segues em frente até as copas das árvores não chegarem para o encobrir, que o vês, atenta à curva à direita, a melhor vista da marginal de sempre. É nesse segundo que sabes que és e sempre serás Poseidon e Perséfone, porque quer queiras quer não, não controlas tudo na vida, nem sequer o teu coração, que dá um salto quando o vês. Os teus pulmões, depois de uma falta de ar de um segundo, o segundo que te esmaga, acalmam, o teu coração também, e uma paz absoluta te invade, à medida que o carro desliza pela marginal e os teus olhos se fixam naquela massa verde, imensa, sem fim. A paz é absoluta, a sensação de leveza maior que tudo, em jeito de memória futura, quando a razão teimar em querer ser dona e senhora do teu destino.
Mesmo que não esteja sol, mesmo que ambos mal se distingam no horizonte, mesmo que a cor cinza do céu quase se confunda com o verde escuro do mar, que está ligeiramente agitado, por causa do vendo, mesmo que uma garoinha chata te surpreenda num verão que te juraram que era o mais quente de sempre, mesmo com algum friozinho. Não queres saber, abres as janelas, respiras a maresia e esqueces tudo, o trânsito, o facto de estares atrasada, os outros carros que circulam na mesma faixa e na faixa do lado. Mesmo a guiar, os teus olhos simplesmente não conseguem deixar de fitá-lo. Estás finalmente no teu habitat natural, és decididamente Poseidon, o deus da emoção, representado na mitologia grega pelo mar. E Perséfone – que há muito deixou de ser dependente de Hades e/ou de Deméter – para ser reconhecidamente a rainha do submundo, do inconsciente, cujo simbolismo é também o mar. O meu mar, o nosso mar, o mar de todo os portugueses, o Atlântico sem fim.

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