Livre

Procusto

18/02/2016

A FOX Life anda a passar uma série de filmes da Nora Roberts e eu, que nunca li um livro dela, dei por mim aqui a pensar em como as histórias são todas iguais, há sempre um fetiche, mete sempre polícia e ela segue sempre a mesma fórmula. Depois lembrei-me do Rodrigues dos Santos, de quem também nunca li um livro na vida, mas que consegue a proeza de escrever livros de 700 páginas, em que supostamente há uma rigorosa investigação histórica, à razão de um por ano, sendo que é diretor de informação de um canal de TV, ou editor, ou coordenador ou lá o que é, e ainda apresenta o TJ todos os dias, além de que, imagino, tem mulher e filhos. Também ele tem uma fórmula, achou o filão do suposto romance histórico e cá vai disto. Ambos fazem imenso sucesso. Já dei por mim a pensar várias vezes o que leva as pessoas a gostar de um texto e não de outro, textos que escrevo com a maior displicência deste mundo, sem grande cuidado, e que fazem um sucesso imenso, e outros, com conteúdo, há sempre conteúdo nos meus textos, bem escritos, que nem tanto assim, ou, pelo menos, não tanto quanto espero. Este é para mim um dos maiores e mais insondáveis mistérios do universo e em momentos de crise de fé dou por mim a desejar ardentemente descobrir essa tal fórmula. Na grande maioria do tempo, quero que se lixe, uma fórmula limita-me, cansa-me imenso, deixa de fazer sentido, preciso de novidade. É por isso que não aguento as séries que são sempre iguais, só mudam os personagens e o assunto. Não sei como os roteiristas não se cansam… Os meus livros, tudo o que escrevo, tem sempre um tema, o tema da vida, acontece com todos os escritores, com todos os artistas em geral, é o nosso tema psíquico, o que nos atormenta, a nossa luta e as nossas dores, a espiral em que vivemos, que é, desejavelmente, sempre a subir, com novas perspetivas sobre o mesmo tema, é por isso que se diz que escrevemos sempre sobre o mesmo assunto, mas não têm uma fórmula. Os formatos têm semelhanças, são ambos, e o terceiro que há de vir, em forma de testemunho escrito, escrevo muito melhor do que falo, dá para organizar melhor as ideias e embelezar o discurso. Escrever, apesar da minha incontinência verbal, é sempre a minha forma primeira de comunicar. Ter uma fórmula é garantia de retorno financeiro, eventualmente paga contas, mas, por mais que me esforce, não consigo, não sei nem se quero. E conheço várias, inclusive fórmulas de sucesso de sites e blogs, não se trata de desconhecimento muito menos de incapacidade para tal. Trata-se, única e exclusivamente, de não querer, não se encaixar em mim, não ter nada a ver comigo. Na minha forma de ver as coisas, a escrita é expressão artística, é autenticidade, é visceral, vem da barriga, é sempre, sempre uma tentativa de um artista lidar com os seus demónios, os seus sonhos, os seus quereres, e nada disso usa fórmulas, porque nada é coerente, como nos não somos, somos feitos de opostos e são eles que nos definem. Não há um método para a autenticidade, o que nos sai das entranhas, não há um formato, uma regra, uma fórmula que funciona. Há paixão, há verve, há emoções extremadas, há angustia, há vida, vida pura, e poesia, beleza, ritmo e melodia. Tem de mexer, abalar, no limite, fazer pensar, tem de suscitar reação, e não apenas curiosidade para saber o que vai acontecer a seguir. E isto, apesar de requerer alguma técnica, claro que sim, não se encaixa numa fórmula, até porque, iria acabar-me com a criatividade e isso seria matar-me. Escrever de acordo com uma fórmula é dar prioridade ao público, ao que ele gosta, ao que espera, ao que quer, o que contraria a minha visão da coisa, que é artística. Eu não faço para vender, por dinheiro, apesar de querer viver de escrever. Posso fazer por encomenda, ghostwriting, publicidade, artigo. Tem sempre a minha marca, o meu jeito, mas o que é meu, dos meus livros, é outra história. Aí faço o que quiser, com a colaboração de um revisor e, espero, de um editor. De resto, há muito que me livrei do meu Procusto, não era agora, depois de velha, que iria permitir que me cortassem as pernas.

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